Por que ficamos presos?

Alguma vez você já sentiu que não conseguia se livrar de um problema? Talvez daquela ansiedade que você tem antes de algum evento, da procrastinação rotineira das suas tarefas, ou mesmo de uma sensação interna de vazio. O fato é que, diariamente, todos nós lidamos com situações mais ou menos estressantes, o que nos demanda algumas estratégias para que possamos lidar com isso. Por exemplo, antes de uma apresentação, podemos tentar nos preparar com antecedência, estudando bastante, ensaiando nossa fala e praticando respiração profunda. Muitas vezes, essas estratégias funcionam e o problema é resolvido. Mas então, quando é que um problema se torna um problema ainda maior?

Nós, seres humanos, trazemos uma bagagem evolutiva incrível que nos permite buscar aquilo que é importante para a nossa sobrevivência (alimento, afeto, recursos, etc), evitar aquilo que é potencialmente danoso (ex.: um cão feroz, um veículo em alta velocidade), além de uma enorme capacidade social e de aprendizagem, o que nos permitiu, entre outras coisas incríveis, desenvolver a linguagem e o planejamento. Essa última bagagem foi fundamental para nossa adaptação, mas não veio sem um custo: o sofrimento humano. Da mesma forma que evoluímos para evitar cães ferozes (e é desejável que o façamos!), agora, nós somos capazes também de evitar o sofrimento causado pelos nossos próprios pensamentos. Que lance a primeira pedra quem nunca deixou de ir a uma festa por estar se sentindo envergonhado, nunca procrastinou a escrita de um texto que nunca parecia ficar bom, ou qualquer coisa similar. Um dos nomes que podemos dar para essas situações onde antecipamos um sofrimento por algo que efetivamente ainda nem entramos em contato direto é “ansiedade”. É natural que tenhamos ansiedade, e é natural também que desejemos evitá-la, assim como evitamos aquilo que nos causa dor, medo, raiva, tristeza etc. 

Deixar de ir a uma festa por estar envergonhado, por exemplo, é uma estratégia de evitação, ou seja, nos afastamos daquilo que está provocando uma sensação desagradável para deixarmos de ter essa sensação. Essas estratégias são muito efetivas para lidar com as nossas emoções no curto prazo, e não é à toa que se tornam nossas “queridinhas” em muitas situações. A questão é que, no longo prazo, essas estratégias nem sempre têm o efeito que gostaríamos. O problema das estratégias de evitação é que, quando mal equilibradas, elas podem nos afastar do que é importante para nós e do lugar aonde desejamos chegar, aumentando o problema ao invés de diminuí-lo. Afinal, não vamos ter a oportunidade de entrar em contato com as consequências naturais do nosso comportamento na situação. Se eu jamais me expor, posso nunca ser criticado, mas também jamais correrei o risco de me sentir aceito, e a cada vez que eu evitar a exposição, estarei ensinando meu cérebro que a exposição é algo perigoso. Assim, ao evitar a exposição, me livro instantaneamente da ansiedade, mas é mais provável que, da próxima vez que eu passar por uma situação parecida, a ansiedade não só se mantenha como ainda aumente. Quando isso acontece, costumamos entrar numa situação onde nos vemos presos, sem saber o que mais podemos fazer. Podemos pensar coisas como “sinto vergonha demais para conseguir ir a essa festa”, “não consigo falar quando estou ansioso”, “eu adoraria poder preparar minhas refeições da semana, mas não consigo me livrar dessa preguiça” ou “se eu não me sentisse tão mal, poderia começar essa nova atividade”. Desistindo de realizar atividades importantes quando nos sentimos mal, vamos eventualmente voltar a ter as mesmas sensações desagradáveis em situações similares no futuro, e ainda teremos de lidar com a tristeza ou outros sentimentos afins associados à não realização dessas atividades. Contra-intuitivamente, a tentativa de controlar ou evitar sensações negativas parece apenas gerar mais delas no longo prazo. Ou seja, ficamos presos em tentar evitar ou controlar nossas emoções e pensamentos ao invés de focar em nos aproximarmos daquelas coisas que fazem a vida valer a pena, mesmo que passemos por uma dose de sofrimento no processo.

Você se identifica com alguma situação parecida? Existe alguma sensação que você gostaria de poder controlar ou deixar de sentir? Veja se tem algum problema que você considera fora do seu controle, ou que, não importa o que faça, não consegue resolver. Quais estratégias você já tentou? Pense nas situações em que o problema se manifesta, e o que você costuma fazer nesses momentos, antes e depois. Elas têm funcionado para o que você deseja? Avalie as consequências ao longo do tempo. O problema parece estar se resolvendo? Ou paradoxalmente ele aumenta? Qual é o custo disso tudo para você? Existe algo que você está perdendo ou deixando de conquistar quando tenta lidar com o seu problema dessa forma?

Experimente mudar o foco do seu problema. Tem algo de importante que você está sacrificando para poder controlar as emoções negativas? Se você pudesse escolher ou entre uma vida com tudo aquilo que você quer conquistar, ou uma vida sem nada daquilo que você não gosta, qual das duas escolheria? Se você pudesse conquistar o que é importante para você, mesmo que não pudesse controlar seus pensamentos e emoções, como você se sentiria? 

Espero que este texto o ajude a viver com mais qualidade enquanto persegue aquilo que é valioso para você. Caso você se perceba cada vez mais preso com um problema sem conseguir resolvê-lo, com prejuízos cada vez maiores na sua qualidade de vida, ou ainda sinta que suas emoções estão tão intensas que sejam paralisantes, considere buscar ajuda em terapia.

Este texto é de autoria do estagiário da equipe CEFI Contextus – Guilherme Jacobsen

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Referências

Strosahl, Kirk; Robinson, Patricia; Gustavosson, Thomas (2012). Brief Interventions for Radical Change: Principles and Practice of Focused Acceptance and Commitment Therapy. New Harbinger Publications, Inc. 5674 Shattuck Avenue Oakland, CA 94609

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Sobre o Autor
Mariana Sanseverino Dillenburg
Mariana Sanseverino Dillenburg
Mariana Sanseverino Dillenburg - CRP 07/27708 Psicóloga graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestranda no Grupo de Pesquisa Avaliação e Atendimento em Psicoterapia Cognitiva Comportamental (GAAPCC) coordenado pela professora Margareth da Silva Oliveira na PUCRS. Especialização em andamento em Terapias Comportamentais Contextuais pelo CEFI/CIPCO. P... ver mais

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