O que bloqueia o movimento?

Estava lendo um capítulo de um livro sobre Terapia Focada na Compaixão quando me deparei com várias ideias que me chamaram atenção. Algumas delas me fizeram pensar na clínica, outras me levaram a refletir sobre situações da minha própria vida. Mas, entre todos os conceitos apresentados, houve uma frase que ficou ressoando dentro de mim por mais tempo do que eu esperava, como se tivesse encontrado um lugar para morar, insistindo para ser revisitada.

Onde estão suas armadilhas de vida bloqueadoras de movimento?

Quando li essa pergunta, algo em mim se conectou. Comecei a pensar nos lugares de sofrimento que todos carregamos. Alguns lugares conhecidos e nomeados e outros mais confusos, quase invisíveis, mas que sentimos que de alguma forma estão ali. E percebi a importância de reconhecer tudo isso como certas armadilhas, para que possamos percebê-las no momento em que acontecem, em vez de apenas nos darmos conta depois de já estarmos totalmente enredados nelas novamente.

Essas armadilhas aparecem de muitas formas, e nem sempre tão claras e óbvias. 

Algumas delas podem estar nos nossos pensamentos, com ideias constantes sobre quem somos e como deveríamos agir. Esses pensamentos podem bater a nossa mente como: ‘eu não faço nada certo’ ou ‘eu não sou capaz’ ou ‘não posso decepcionar ninguém`. Esses conjuntos de palavras acabam por nos limitar para as tentativas e as mudanças, tornando a vida com cada vez menos caminhos a serem experienciados.

E ainda nossos pensamentos podem criar looongas histórias sobre nós mesmos, histórias sobre quem somos e sobre como temos todas as razões para continuar a seguir esse mesmo script. Essas histórias que até podem ter feito sentido um dia, mas que agora não nos permitem explorar outras perspectivas. 

Também existem armadilhas escondidas nos nossos hábitos. Responder de forma reativa ou defensiva. Evitar conversas difíceis. Não expressar tristeza. Esperar que o outro adivinhe nossas necessidades. Dificuldade em dizer não. Comparações constantes com outras pessoas. Podem ser alguns exemplos de formas de agir que já naturalizamos e as vivemos, muitas vezes, de forma automática. 

Outra armadilha comum é achar que, só porque um caminho fez sentido no passado, ele ainda é o melhor caminho agora. É como insistir em usar uma roupa que não nos cai bem, porque algum dia ela já nos serviu perfeitamente. Permanecemos no mesmo lugar por não aceitar que mudamos e a vida ao nosso redor mudou.

Há também as armadilhas que nascem da exigência e da autocobrança sem fim. Ao olhar de forma distanciada, até pode parecer com uma força inesgotável e isso ser admirável. Mas para quem a carrega é um peso extremamente exaustivo, bloqueando a vida a fluir com leveza, profundidade e espontaneidade. 

E, assim, quando presos nessas armadilhas, vamos nos distanciando de viver a vida que nos é valiosa e nos importa. Estar consciente disso, não é estar em um lugar de luta constante, querendo ‘acabar’ com essas armadilhas. E, sim, um lugar de honestidade gentil com o nosso sofrimento. 

O que muda é o que fazemos quando finalmente conseguimos notá-las.

Poder olhar para elas e também se mover.

Poder se mover com elas.  

GILBERT, Paul; SIMOS, Gregoris (orgs.). Terapia Focada na Compaixão: Aplicações e Prática Clínica. 1. ed. Rio de Janeiro: Grupo A / Artmed, 2024. 

AYES, S. C.; STROSAHL, K. D.; WILSON, K. G. Terapia de aceitação e compromisso: o processo e a prática da mudança consciente. 2. ed. Rio de Janeiro: Artmed, 2021.

Sobre o Autor
Ana Paula Domeneghini
Psicóloga (PUCRS - CRP 07/23571). Especialista em Terapias Comportamentais Contextuais Baseadas em Processos (CEFI). Especialista em Terapia Sistêmica Individual, Conjugal e Familiar (CEFI). Atua como psicóloga clínica com atendimento individual, familiar e conjugal. Membro da Equipe CEFI Contextus. ver mais

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