
Essa última semana vivenciei de perto muitos encerramentos de ciclos e o que mais notei foi a grande presença do amor. Tivemos uma despedida amorosa de um colega da equipe e acompanhei amigas queridas se despedindo de pessoas amadas: pai, ex-terapeuta e irmã. Estar tão próxima dessa dor me fez relembrar das minhas despedidas e da imensidão do amor e da dor que estavam ali presentes. Encerrar dói. Dói porque houve significado. Carrego comigo essa frase desde sempre: “O tamanho da dor é o tamanho do amor.” Então trago aqui a contribuição que a prática da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) pode nos trazer nesses momentos.
Encerrar ciclos, seja vivenciando a morte de alguém querido, encerramento de um relacionamento, trabalho ou uma fase de vida, raramente é fácil. Há sempre algo que se despede junto: planos, sonhos, rotinas, partes de nós mesmos que nasceram naquele contexto. Muitas vezes, o impulso inicial é resistir, tentar controlar o que não pode mais ser mantido ou fugir da dor da perda. A Terapia de Aceitação e Compromisso nos convida a fazer diferente, a olhar para esses momentos não como fracassos, mas como partes naturais do fluxo da vida.
Em vez de lutar contra o que sentimos, a ACT nos ensina a abrir espaço para a experiência, com gentileza e curiosidade. Encerrar um ciclo de forma saudável começa com aceitação, não no sentido de resignação, mas de reconhecer o que é, permitir que as emoções se manifestem, por mais desconfortáveis que sejam. Tristeza, culpa, saudade ou medo não são inimigos: são sinais de que algo teve valor.
Quando paramos de lutar contra a dor, começamos a criar espaço para o amor.
Podemos olhar para o que termina com compaixão, honrando o que vivemos, o que aprendemos e o que permanece em nós. Há um dos processos da ACT denominado desfusão cognitiva: observar nossos pensamentos e lembranças sem nos prender a eles como verdades absolutas. “Eu perdi algo importante” pode se transformar em “vivi algo que me marcou profundamente”. Assim, o foco muda da perda para o significado.
A ACT nos lembra que o encerramento não precisa ser um ponto final, pode ser uma virgula amorosa, um espaço para respirar antes do novo parágrafo. Fechar um ciclo com amor é reconhecer o que foi bonito, mesmo que tenha doído. É agradecer o que nos formou, mesmo que agora precise partir.
Encerrar um ciclo de forma amorosa também envolve reconexão com os valores.
O que realmente importa para você neste novo momento? Que tipo de pessoa você quer ser diante do fim? Talvez escolher a gratidão em vez do ressentimento, a honestidade em vez da negação, o cuidado em vez do fechamento. E então, lentamente, voltamos aos valores, aquilo que nos guia, mesmo quando o chão parece incerto. Amor, cuidado, honestidade, coragem, leveza. Esses valores são como raízes: sustentam mesmo quando o vento muda a direção.
Os valores são faróis que guiam o movimento e a ação comprometida é o passo seguinte: pequenas atitudes que expressam esses valores, mesmo com o coração apertado. Pode ser escrever uma carta de despedida, fazer um ritual simbólico, conversar com alguém querido ou simplesmente permitir-se respirar fundo e seguir.
Encerrar ciclos não é apagar histórias; é integrar o que foi e abrir espaço para o que virá. E quando o coração se acalma um pouco, é tempo de olhar para dentro e se perguntar: O que quero levar comigo desse ciclo? O que aprendi sobre mim? O que quero nutrir no que vem a seguir?
Nesse instante, convido você a reservar uns minutos do seu dia e praticar um breve exercício de mindfulness e conexão com o momento presente:
Pense em um ciclo que está se encerrando ou se encerrou na sua vida. Talvez um relacionamento, um trabalho, uma fase ou algo ou alguém importante que tenha partido. Permita que as emoções que surgem venham como são — sem lutar contra, sem se apressar para que passem. Apenas sinta…Agora, imagine-se agradecendo por tudo o que esse ciclo ou relação trouxe: alegrias, dores, aprendizados, partes de você que se revelaram…Nada foi em vão… E repita para si mesmo, com suavidade:
“Posso encerrar com amor, posso permitir que o novo comece.”
Respire fundo mais uma vez. Deixe que a gratidão se misture à aceitação.
E, ao expirar, sinta-se mais leve, abrindo espaço para o próximo capítulo…
DEDICO ESSE TEXTO A VOCÊS MEUS QUERIDOS AMIGOS E COLEGAS DO CEFI: ANA, EMMANUEL, MARIANA E MARTHA, QUE ME ENSINAM E ME ENSINARAM TANTO NESSES ÚLTIMOS DIAS, SOBRE A FORÇA DO AMOR E A ACEITAÇÃO DA DOR.
Que hoje seja o dia de olhar para o que termina com ternura, agradecer o que foi e abrir espaço para o que está por vir. Com amor, Vanessa.

