Tentando pegar as moscas do dia a dia

Você já teve a experiência de tentar pegar uma mosca no ar enquanto ela voava? Se você já testou fazer isso, provavelmente experimentou dificuldade em ser bem-sucedido(a) nessa tarefa, afinal de contas, a mosca voa muito rápido e é difícil movimentar a sua mão na mesma velocidade que ela (ou mais rápido) para alcançá-la. Agora eu vou convidar você para uma reflexão que pode parecer um pouco estranha, mas vamos lá: você já teve a sensação de parecer que você está vivendo como se estivesse tentando pegar uma mosca? Você se esforça, se esforça e ainda assim parece que não é suficiente para dar conta?

 

Eu tenho me sentido assim atualmente, com muitas tarefas para fazer: aulas para montar, atendimentos para realizar, supervisões para fazer, capítulo para escrever, estudos e leituras para todas essas atividades, treinar funcional, correr, ver a família, ver os amigos, ter tempo com o meu noivo e por aí vai… Parece que por mais que eu me esforce muito, abra mão dos meus fins de semana, durma menos horas, ainda assim não é suficiente para dar conta de todas elas.

 

E se eu abrir mão de outras tarefas de autocuidado nesse esforço, por quanto tempo eu vou conseguir manter esse ritmo? Na metáfora da mosca, provavelmente em algum momento o meu braço vai cansar, na vida, eu também vou cansar e posso inclusive aumentar as chances de ficar doente. E o que eu perco se eu passar quase todo o meu tempo perseguindo moscas? Não sei vocês, mas eu prefiro usar a maior parte do meu tempo com outras coisas. Até porque não vão acabar as moscas do mundo, se eu pegar uma, daqui a pouco outra vai surgir e sempre terá uma mosca para eu tentar pegar.

 

Mas qual é a alternativa nessa situação??? Ainda assim, “precisamos dar conta de todas as coisas”. Bom, primeiro percebam que eu coloquei a frase anterior entre aspas porque estamos falando de um pensamento. Podemos observá-lo e observar como nos comportamos quando estamos presos a ele. Você pode inclusive se perguntar: é útil reagir a esse pensamento dessa forma? Reflita sobre isso, você não precisa chegar em nenhuma solução para os seus problemas (até porque será que isso não seria seguir perseguindo a mosca?), apenas fazer a reflexão.

 

E agora eu te convido a refletir sobre outro ponto: e se o caminho não for sobre o que você faz (ou precisa fazer), mas como você faz isso? Eu posso seguir tendo todas as tarefas que eu citei para fazer e reconhecer as minhas limitações humanas, por exemplo. Afinal, somos humanos, não máquinas, talvez seja irreal a cobrança de ter que estar produzindo muito bem o tempo todo. Reconhecer a nossa humanidade é também reconhecer os nossos limites e tolerar o desconforto que vem quando pensamos “eu não vou fazer tudo ao mesmo tempo”. Logo eu preciso hierarquizar as minhas tarefas, tolerar o impulso de resolver várias coisas ao mesmo tempo e ser efetiva (fazer o necessário, não o perfeito nem o ideal).

 

Fazer isso envolve praticar estar em mindfulness para me conectar com o momento presente e com o que estou fazendo (ao invés de ficar na minha mente e em tudo que ainda tem para fazer) e aproveitar o momento. Também envolve conseguir me manter atenta aos meus objetivos para não ceder a impulsos momentâneos (por exemplo, aceitando mais tarefas ou priorizando outras coisas que não sejam tão importantes naquele momento) e adotar uma postura mais auto compassiva (reconhecendo que estou fazendo o melhor possível naquele momento dado todo o contexto). Em relação a esse último ponto, entendo que quando a autocrítica aparece dizendo: “você não está fazendo o seu melhor, você poderia fazer mais” é importante avaliar o quão útil é se grudar nesse pensamento, se não for útil, melhor deixar passar. Por fim, não encarar a rotina como uma lista de tarefas a serem cumpridas como se estivéssemos batendo o ponto nas nossas próprias vidas, mas sim, como atividades a serem usufruídas. Lembrar do que foi importante para nós ao fazer essas escolhas e como a gente pode se conectar com esse valor, ao invés de simplesmente dar um check na tarefa.

 

Fazer isso, ou seja, parar de caçar a mosca e conectar com o momento presente e com o que eu estou fazendo não tira o desconforto da situação (assim como a mosca continuar voando no ambiente pode me gerar um incômodo e irritação), mas permite que EU esteja no comando da minha própria vida, não as minhas tarefas. Esse é o exercício que me propus a fazer na última semana, espero que possa ser útil para vocês!

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Sobre o Autor
Mariana Sanseverino Dillenburg
Mariana Sanseverino Dillenburg - CRP 07/27708 Psicóloga graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestre em Psicologia Clínica pela PUCRS na área da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Especialista em Terapias Comportamentais Contextuais pelo CEFI/CIPCO. Possui treinamento em Terapia Comportamental Dialética (DBT) pelo CEFI. Experiência com atendimen... ver mais

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