O Ponto de Escolha – uma ferramenta para flexibilidade psicológica

Muitas vezes na vida, nós encontramos momentos que podemos considerar como pontos de transição, bifurcações que vamos encontrando na estrada da vida dia após dia. Umas são grandes outras são pequenas, mas todas são significativas porque dizem respeito a como vivemos a vida. São aqueles instantes em que se cria um espaço entre estímulo e resposta, um espaço de liberdade no qual podemos direcionar nossas ações para o lado que quisermos, dentro das possibilidades que se nos apresentam. Nessas situações, há a possibilidade de não somente reagirmos automaticamente, mas de agirmos intencional e propositalmente. A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) tem por objetivo auxiliar a gerar mais momentos desses em que podemos escolher agir de acordo com o que realmente valorizamos na vida, mesmo quando vivenciamos experiências difíceis. A ACT, por ser uma abordagem baseada em processos, pode ser aplicada de forma flexível usando uma infinidade de técnicas diferentes. Já falamos aqui da flexibilidade psicológica, o processo principal com que a ACT trabalha, e já mostramos a ACT Matrix como uma das formas como se trabalha nesse processo. Hoje vou apresentar outra técnica: o Ponto de Escolha, descrevendo-o e apresentado um exemplo pessoal do uso dessa técnica.

Para começar, partimos da constatação de que sempre estamos fazendo alguma coisa. Seja quando estamos andando, brigando, fazendo exercícios, pensando ou olhando um pôr do sol, tudo isso são atividades. E tudo o que fazemos pode ser mapeado como seguindo em uma de duas direções possíveis: algumas ações nos aproximam do que é importante para nós, do tipo de pessoa que queremos ser, da construção da vida que almejamos e do mundo em que queremos viver; e outras coisas nos afastam das coisas importantes, nos distanciam da pessoa que gostaríamos de ser, e vão em sentido contrário à construção da vida que buscamos e do mundo em que queremos estar. Em síntese, quando agimos em qualquer situação na vida, ou nos aproximamos ou nos afastamos de nossos valores.

Você já deve ter percebido que quando as coisas estão bem, quando estamos “de boa”, a tendência é que seja menos difícil agir na direção dos valores. Mas quando as coisas estão difíceis, quando nos vemos em meio a pensamentos grudentos, vivenciando experiências desagradáveis, é mais provável que acabemos agindo na direção oposta aos nossos valores. É como se algumas situações ou aspectos das situações (pensamentos, sentimentos, lembranças etc.) tivessem o poder de nos deixar presos, enquanto em outras situações mais agradáveis estamos menos presos, mais soltos, mais livres para viver conforme nossos valores. O Ponto de Escolha serve para nos ajudar a ficar menos presos, aumentar nossas chances de fazer mais as coisas que realmente importam e menos daquilo que nos afasta da pessoa que queremos ser.

Um dos modos como essa técnica pode nos ajudar é nos dando uma ferramenta para fazer sentido do que está acontecendo: agora, nesta situação, estou me afastando ou me aproximando dos meus valores? Essa é a pergunta que circunscreve o ponto de escolha. Quando começamos a treinar o Ponto de Escolha em diversos momentos da  nossa vida, a princípio o que importa não é tanto a resposta que damos à pergunta, mas a pausa e o que fazemos nessa pausa. O ato de se colocar no Ponto de Escolha e fazer a pergunta nos recoloca no centro de nossa própria conduta. O primeiro passo é, então, aprender a estar no Ponto de Escolha. Em seguida vem o escolher e agir na direção que queremos.

Quando conseguimos estar no centro e perceber para que lado estamos indo a cada momento, é natural que queiramos ir mais na direção de nossos próprios valores. Se não fosse assim, não seriam nossos valores, afinal. A partir desse ponto em que notamos que podemos ir para um lado e para outro, virão bem algumas habilidades auxiliares que nos permitirão fazer duas coisas: primeiro, ter clareza do que é importante, que objetivos nos aproximam disso e que passos podemos dar para avançar. Segundo, nos desprender quando estivermos presos por aspectos da situação. Essas habilidades auxiliares são os processos da Terapia de Aceitação e Compromisso que já conhecemos: 

valores (direções gerais que queremos que guiem nossa vida, que partem do saber o que e quem é importante para nós na vida e quais as características da pessoa que queremos ser e do mundo que queremos viver) e objetivos (metas alcançáveis que nos ajudem a reconhecer quando estamos nos aproximando dos valores);

estar no momento presente (direcionar nossa atenção conscientemente ao momento presente e notar o que ocorre dentro e fora de nós a cada instante); 

aceitação (dar espaço às experiências desconfortáveis e mobilizar uma atitude de disposição para vivê-las abertamente e sem defesas desnecessárias, aceitando-as como parte da complexidade da experiência humana); 

desfusão (reconhecer nossos pensamentos e conteúdos cognitivos e nos descolarmos de seu sentido literal, vendo-os como atos de linguagem que são)

eu-contexto (nos percebermos como o contexto no qual as experiências de ser quem somos se dão ao longo do tempo, reconhecendo que somos mais do que as descrições, rótulos e histórias que contamos sobre nós mesmos). 

Algumas habilidades gerais de vida também podem ser úteis aqui: habilidades de resolução de problemas, planejamento de ações e definição de metas, habilidades sociais e de conexão interpessoal de modo amplo etc. 

Quando começamos a usar o Ponto de Escolha no dia a dia, vamos vendo quais desses auxiliares nos são mais úteis em cada situação, e podemos treiná-los conforme a necessidade aparece, para que nos vejamos cada vez menos presos e mais livres para viver conforme nossos valores mesmo quando as situações são desafiadoras. 

É mais ou menos assim:

Vejamos um exemplo da aplicação do Ponto de Escolha: a situação em que me vejo agora é de que tenho de preparar uma aula e me sinto ansioso. Pensamentos ocorrem como “vou ter tempo depois”, “isso é muito chato”, “estou muito cansado”, “é muito difícil, não quer pensar nisso agora”. Por um instante, parece que nunca vou dar conta e que a tarefa é demais para mim. Junto surge uma sensação de frio na barriga e um sentimento de ansiedade.

Minhas ações que me afastariam dos meus valores nesse momento incluem: abrir um site de quadrinhos e ficar clicando no botão de atualizar para abrir um novo quadrinho repetidamente por vários minutos; sair para comer um doce; ler um livro sobre algum outro assunto não relacionado à aula. O que é importante para mim e que é relevante nessa situação e quais seriam objetivos relacionados a esses valores? A organização é importante, e gostaria de fazer as coisas com calma e dentro dos prazos planejados; o conhecimento é importante, e gostaria de preparar uma boa aula que me possibilitasse compartilhar e aprender junto com os alunos; o respeito a mim mesmo é importante, e gostaria de conseguir reconhecer minhas limitações e pedir ajuda nas coisas que necessito, como consultar um colega mais experiente pedindo dicas para preparar uma aula. 

Essa é a bifurcação em que me encontro, esse é o ponto de escolha. Me sentindo preso pelos pensamentos e sentimentos envolvidos na situação, podem me ser úteis as habilidades de aceitação para dar espaço à experiência de cansaço, de ansiedade e desconforto que me pega quando penso em iniciar a aula. Pode ser que habilidades de desfusão me ajudem a notar que a avaliação “é chato” é “é muito difícil” são pensamentos que me ocorrem e que não preciso comprar tudo o que dizem, ainda que não seja necessário também argumentar com eles nesse momento. As habilidades de mindfulness podem ser úteis para que eu me observe e reconheça se de fato estou com fome; ou ainda se tenho necessidade de descansar mesmo ou não neste momento. As habilidades de eu-contexto podem me ajudar a notar a descrição de mim mesmo como incapaz ou insuficiente para a demanda, e notar que eu sou quem as produz e não produto delas. As habilidades gerais da vida podem me ajudar a fazer um pedido claro, e com chances de ser atendido, para um colega me ajudar com um ponto específico da preparação da aula. 

 

E então, que tal tentar usar o ponto de escolha algumas vezes nos próximos dias e ver como funciona para você? Em breve volto para contar mais sobre essa ferramenta.

 

Sobre o Autor
Lucas A Schuster de Souza
Lucas A Schuster de Souza
Psicólogo, formado pela UFRGS, especialista em Psicoterapia de Técnicas Integradas pelo Instituto Fernando Pessoa. Tem formação em Terapias Comportamentais Contextuais e em Terapia Comportamental Dialética pelo CEFI/CIPCO, e mestrado em Psicologia Clínica, pela PUCRS, onde contribui com o Grupo de Pesquisa em Avaliação e Atendimento em Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais - GAAPCC - na re... ver mais

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