Minha primeira metáfora

Não sei como costuma ser com as outras pessoas ou com você que está lendo este texto, mas geralmente, o momento que vou para o banho é quando meus pensamentos viajam mais longe. Raramente consigo escolher o que pensar nessas horas: as ideias geniais, cenas ensaiadas, lembranças afetivas, ou qualquer coisa possível de passar na mente de um ser humano, invadem minha cabeça sem pedir licença. E um dia desses não foi diferente.

eu no banho.

Estava eu, abaixo de cargas d’agua, quando pensei “eu sou péssima com metáforas”. Não era a primeira vez eu ouvia isso. E por muito tempo acreditei nessa ideia como uma grande verdade sobre mim. Mas naquele dia, foi diferente! Observei esse pensamento, e respondi para minha própria mente:

– O pensamento “eu sou péssima com metáforas” apareceu na minha mente.

E, ufa, percebi que não estava presa a essa ideia. E foi quando, “eureca!”, paradoxalmente minha mente criou uma metáfora! Percebi naquele momento uma espécie de euforia, uma alegria e empolgação surgiram no meu corpo. Eu estava consciente de que tinha feito uma metáfora!

O que aconteceu ali foi que categorizei minha experiência de notar meu pensamento que estava presente naquele momento como apenas um pensamento, o que chamamos em ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) de processo de desfusão e de tomada de perspectiva (sim, a mente de psicólogos – ao menos a minha- encontra processos psicológicos por tudo!). Isso tudo aconteceu no instante em que a imagem de um livro surgiu em meus pensamentos.

– Calma, sei que já existe uma metáfora que compara nossa vida a um livro. E não foi bem por aí que imaginei.

 

MINHA METÁFORA 

Para acompanhar meu raciocínio, pense em um grande livro. Na verdade, um livro do tamanho que você quiser (seja livre para escolher seu tamanho, cor e forma). Agora, imagine que dentro deste livro, são colocados lembretes, pequenas folhas que servem para marcar páginas ou para não esquecer da essência do conteúdo lido. Ali podem estar dados importantes, rascunhos e ideias interessantes. Quando o livro está fechado, essas pequenas folhas ficam presas lá dentro, grudadinhas entre uma página e outra. Quanto mais tempo o livro fica sem ser aberto, mais presas ficam tais folhas com anotações. Por vezes, após um longo período fechadas sentindo a pressão do livro, mesmo que o ele seja aberto e carregado de um lado e para o outro, os anexos seguem firmes lá dentro, sem cair. Acontece que, com o tempo, as anotações podem perder o sentido ou a função e serem apenas mais volume.

Você já releu alguma vez um livro já sublinhado em outro momento e se perguntou “porque marquei isso?” – sim!? Pois é, nós mudamos ao longo do tempo, e nossas “folhinhas” por vezes ficam desatualizadas.

Bem, você pode estar se questionando, que metáfora maluca é essa? O que enxerguei com ela é que, assim como o livro, precisamos abrir nosso campo de atenção e distanciar “uma página da outra”, para deixar tais folhinhas se soltarem. Assim, pode-se reconhecer que essas são apenas folhas anexadas, e não algo colado na página que tapa outras coisas importantes que lá estão. No meu caso, o bilhete “eu sou péssima com metáforas” se desprendeu do meu livro quando o reconheci como um pensamento.

O processo da flexibilidade psicológica, proposta pela ACT, de tomada de perspectiva refere-se a esse movimento de mudarmos o ângulo pelo qual observamos nossa experiência, possibilitando o reconhecimento daquilo que estamos pensando e sentindo, apenas como pensamentos e emoções. Deste modo, amplia-se a capacidade visualizarmos o que  mais está presente  em nosso campo, como: os fatos da situação, o que realmente importa no momento, os nossos objetivos e as possibilidades de escolha que temos.

Espero que meu livro siga se abrindo e fechando, para mais eu poder criar novas metáforas e me movimentar sem tanto peso anexado.

 

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Sobre o Autor
Maria Eduarda D. de Alencastro

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