Como fazer um pedido assertivo com Fábio Assunção

Há algumas semana circulou um vídeo do Fábio Assunção falando sobre uma música que levava o nome dele e que a mesma passaria 100% dos fundos arrecadados para instituições de tratamento de dependência química. Eu ainda não havia escutado essa música até ver o vídeo do Fábio.

Para alguém que já conviveu com a dependência química bem de perto, foi bem difícil assistir o vídeo sem julgar. Noto que já evoluímos muito como sociedade na quebra de tabus sobre transtornos mentais. Em vários contextos já não é visto como “coisa de louco” fazer terapia ou tomar medicação psiquiátrica. Contudo, ainda se escutam comentários do tipo “Ela é pirada da cabeça”, “Essa pessoa deveria estar num hospício”, “Ele só quer chamar atenção”, ou “Ela não quer mudar” em tons pejorativos quando se referem a pessoas com transtornos mentais.

Com isso, não estou querendo dizer que não tem problema uma pessoa com um diagnóstico de dependência química beber todos os dias até ficar embriagada ou uma pessoa com diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline jogar um objeto no companheiro durante uma discussão porque teve uma crise de raiva e não conseguiu controlar o impulso. Se esses comportamentos têm consequências que prejudicam a própria pessoa ou outras à sua volta, são comportamentos problemáticos. Nós não somos responsáveis por termos o diagnóstico de um transtorno mental, mas somos responsáveis pelo que faremos com isso e pelos nossos comportamentos.

Da mesma forma, atitudes preconceituosas contra os transtornos mentais (psicofobia) também são comportamentos-problema pois têm consequências que prejudicam outras pessoas e até a si mesmo. Se fizerem uma denúncia por algum comportamento preconceituoso, provavelmente o responsável receberá uma multa que o prejudicará financeiramente e o afastará de coisas importantes. Nós não temos como apagar o comportamento problema, como se ele nunca tivesse existido, nossas ações deixam marcas. Eu posso trabalhar para entender quais os fatores (o que eu pensei, senti, aconteceu no ambiente) que aumentaram a probabilidade de eu realizar o comportamento problemático; e posso tentar preveni-los usando habilidades que me auxiliem a quebrar esse ciclo. E em relação àquele comportamento que já aconteceu, posso buscar formas para tentar reparar o que é mais importante para mim e que foi prejudicado por aquele comportamento.

A Terapia Comportamental Dialética (DBT) ensina algumas habilidades que podem ser observadas na situação descrita no primeiro parágrafo. A realização de um clipe que expôs uma pessoa conhecida, referindo-se a um comportamento dela relacionado a um transtorno mental, de forma que pode ser entendida como irônica e pejorativa na nossa cultura, me parece um comportamento problemático dos cantores. Algo que vamos conceituar na DBT como invalidação, ou seja, a falha em reconhecer o contexto, o ponto de vista e as dificuldades pelas quais o outro pode estar passando. A atitude deles de investir todos os lucros da música em instituições que tratam dependência química pode ser interpretada como uma forma de reparar esse comportamento-problema.

Outra habilidade que podemos observar nessa situação é como fazer um pedido assertivo. A vida não é justa, nem sempre seremos respeitados ou teremos o que gostaríamos. E essas situações podem – e provavelmente vão – nos gerar sofrimento. Diante disso, temos algumas opções: não fazer nada e continuar sofrendo, tentar punir aqueles que nos agrediram ou tentar tirar algum proveito ou sentido de uma situação que foi sofrida (o famoso ditado: fazer limonada dos limões que a vida dá). Como disse o próprio Fábio Assunção, no vídeo em que comentou o acordo que fez com os cantores: “não censurar não significa que não existe aqui uma oportunidade de conscientizar”. Portanto, ele usou essa oportunidade para fazer um pedido e conseguir que os lucros da música fossem investidos em instituições de tratamento de dependência química. A habilidade que treinamos para fazer pedidos assertivos na DBT é chamada DEAR MAN (Linehan, 2018). Vamos olhar com mais detalhes para ela agora:

 

DDescrever: Aqui se faz a descrição apenas dos fatos (quem, onde, quando), o que pode ser captado pelos cinco sentidos, sem incluir os julgamentos e interpretações dos fatos. Ex: “Hoje de manhã você deixou a toalha molhada em cima da cama” em vez de “Hoje de manhã você deixou uma bagunça no quarto”    

EExpressar: Seus sentimentos e opiniões sobre a situação. Coloque como você se sente ao invés de apontar o dedo para outra pessoa. Ex: “Eu fico irritada quando eu deito na cama e ela está molhada” ao invés de “o que você fez é errado, você é um relaxado”.

A – ser Assertivo: pedindo claramente o que você quer. Ex: “Eu gostaria muito que você pendurasse a toalha molhada no banheiro” em vez de “Você pode ser mais organizado?”.

RReforçar: Diga à pessoa as consequências positivas que acontecerão se ela realizar o seu pedido, lembrando que essas consequências precisam ser gratificantes para a pessoa a quem está fazendo o pedido. Caso contrário, elas não aumentarão a probabilidade da pessoa realizar o que você quer. Se for necessário, pode apresentar as consequências negativas de não realizar o pedido. Outro detalhe importante é que precisa de fato fazer o reforço se a pessoa realizar o que se está pedindo. Ex: “Se você fizer isso, eu ficarei mais tranquila e nossa convivência será mais tranquila também”.

 

M – mantenha-se em Mindfulness: mantenha o foco no seu objetivo, sem sair de suas metas ou se distraindo. Por vezes as pessoas podem tentar trocar de assunto ou desviar do foco (por exemplo: “Mas você também já deixou a toalha molhada em cima da cama e agora vem falar de mim”), portanto precisamos estar conscientes durante a conversa para não morder essas iscas. Uma forma de fazer isso é ser um “disco arranhado” e ficar repetindo várias vezes o mesmo pedido.

AAparente confiança: não olhe para baixo, use tom de voz e postura confiantes, independentemente de realmente estar se sentindo assim ou não.

NNegocie: Flexibilize o seu pedido para que aumente a probabilidade da pessoa realizá-lo, avaliando, é claro, o que você está disposto a flexibilizar. Ex: Caso você esqueça a toalha em cima da cama você poderia trocar a coberta por uma que estiver seca depois?”

 

Como eu falava anteriormente, a vida não é justa, as coisas nem sempre saem como nós esperamos, nossa família pode não ser como gostaríamos, podemos ter um diagnóstico que impacta a nossa vida e exige um tratamento e comprometimento diário; enfim, muitas coisas que não escolhemos e que mesmo assim fazem parte da nossa realidade. E isso não quer dizer que precisamos relevar e ficar bem com tudo isso. O sofrimento também faz parte e, em cada sofrimento, nós também temos uma oportunidade de treinar uma nova habilidade para nos aproximar das nossas metas e da pessoa que queremos ser.  

 

Referência: Linehan, M. M. (2018). Treinamento de Habilidades em DBT: Manual de Terapia Comportamental Dialética para o Paciente. Artmed Editora.

 

Oi Gente… eu não pretendia tornar esse assunto público por vários motivos, mas a imprensa resolveu comentar e os meninos foram bem generosos fazendo o video deles explicando nosso acordo sobre a música Fabio Assunção. Antes de qualquer coisa eu preciso falar com as pessoas que passam pelo mesmo problema que eu. Eu não endosso, de maneira nenhuma, essa glamourização ou zueira com a nossa dor. Minha preocupação é com quem sente na pele a dor de ser quem é. Com as suas famílias.Para além disso, eu quero dizer que jamais me passou pela cabeça censurar a criatividade das pessoas, quando vi a tal zueira tomar proporções gigantescas como a música. Mas entre não censurar e deixar de conscientizar, existe um abismo que não me conforta. 15% das pessoas do mundo tem problemas de adicção. É muita gente sofrendo por não conseguir controlar suas compulsões e eu acho importante lembrar a todos que isso não tá escrito na certidão de nascimento. Todo mundo começa do mesmo jeito. Achando que tudo bem. E pode não terminar tudo bem. Foi pensando nisso que eu, minha equipe de comunicação e o corpo jurídico que me atende, decidimos entrar em contato com os meninos e tornar essa história um ato propositivo de ajuda a quem precisa e de conscientização de quem pode ainda acreditar ser um super herói. 100% dos valores arrecadados com a música serão doados para as instituições A e B que vamos informar posteriormente como um ato irmanado entre quem sente essa dor e quem tem voz para ampliar a conscientização das pessoas. Nós não somos super heróis. Cuide de vc, cuide de quem você ama, cuide dos seus amigos nas festas. Seja responsável. Olhe pro outro e pra você, e se estiverem passando dos limites, ativem o modo! Lembrem que o Fabão aqui respeita a zueira, ama a brincadeira, mas quer vocês bem e vivos! Fortes, felizes e conscientes de seus atos e de suas vidas.

Posted by Fabio Assunção on Tuesday, January 22, 2019

Sobre o Autor
Mariana Sanseverino Dillenburg
Mariana Sanseverino Dillenburg
Mariana Sanseverino Dillenburg - CRP 07/27708 Psicóloga graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestranda no Grupo de Pesquisa Avaliação e Atendimento em Psicoterapia Cognitiva Comportamental (GAAPCC) coordenado pela professora Margareth da Silva Oliveira na PUCRS. Especialização em andamento em Terapias Comportamentais Contextuais pelo CEFI/CIPCO. P... ver mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *