Calma, você não está “enlouquecendo”

Talvez você nem queira ler este meu texto, pois já está saturado de informações que lhe bombardeiam todos os dias de todos os lados. Mas eu quero só te passar uma mensagem:

CALMA (dentro do possível). Você não está “enlouquecendo”!!

A verdade é que estamos frente a uma grande crise que afeta diversos setores da nossa vida. Um vírus – que é invisível – ameaça nossa saúde (e torço para que não, a vida). Nosso sistema de saúde, está correndo atrás da máquina para não colapsar. A economia do país (principalmente), as oportunidades de emprego e fontes de renda em breve podem estar beirando a escassez. Socorro – minha mente me diz.  Quanta coisa ao mesmo tempo para lidarmos. E se você, assim como eu, sente medo, angústia e tristeza por essa situação, por pior que seja, saiba que a ansiedade toda que está aí não é um sinal de loucura.

Diante de tantas incertezas, talvez o nosso próprio desconforto pode ser uma fonte de segurança. Como assim? Sim, a nossa experiência é, neste momento, uma das únicas coisas sobre a qual podemos interferir, é quase algo palpável que está nas nossas “mãos”, ou melhor, no nosso corpo inteiro. Não escolhemos pensar coisas do tipo “é o fim do mundo” ou “não vou suportar passar por isso”, tão pouco sentir uma avalanche de emoções que apertam o peito e trazem a dúvida “será que estou doente?”. Entretanto, há formas de mudarmos nossa relação com esses pensamentos e sensações, e a mudança começar com o perceber que estes são apenas pensamentos e sensações. Talvez não seja nada agradável tolerá-los como parte da experiência humana, mas sempre achamos uma forma de aliviar nossos desconfortos.

Sabe aquela puxada no celular para ficar nas redes sociais sem talvez nem ver o que está ali? Ou aquele lanche gostoso em um momento no qual não temos fome, mas que dá uma vontade de comer? Pois bem, adotamos diversas estratégias para autorregular nossa emoção, ou seja, deixar de ficar sentindo o desconforto, que funcionam temporariamente. E aqui trago um alerta, pois algumas estratégias que usamos normalmente para aliviar nossas tensões podem trazer consequências indesejadas, quase como um efeito rebote, pois vêm acompanhadas de culpa, tristeza, raiva ou ansiedade.

Meu intuito é ajudá-lo a não ficar tão sensível emocionalmente quando o contexto externo a você não é muito favorável para lhe deixar tão seguro. Nessas horas, quando quase nada nos cabe, o melhor que temos a fazer é focar naquilo que podemos controlar. Por isso, trago a mensagem de calma e apresento-lhes às habilidades que Linehan (2018) sugere como formas de reduzirmos nossa vulnerabilidade emocional através do cuidado com o nosso corpo!

Estas habilidades não são o antídoto para não fazermos o que nos traz alívio e culpa, mas são formas de nos deixar mais protegidos emocionalmente e menos suscetíveis aos impulsos de nosso estado emocional, quando ele não parece ser um caminho desejado.

  1. CUIDAR DA SAÚDE! Se perceberem sinais de gripe, dor de garganta, dificuldade de respirar, conversem com o seu médico. Sei que estamos suscetíveis a qualquer tipo de doença, não só o COVID19, por isso não deixe de se cuidar. E se você toma medicações, importante seguir as recomendações do seu médico e manter tratamento!
  1. COMER ALIMENTOS QUE NUTREM E SUSTENTAM O CORPO. Busque uma alimentação equilibrada, tanto o jejum quanto o excesso podem interferir sobre sua vulnerabilidade emocional. Lembre-se que a comida é nosso combustível!
  2. BALANCEAR O SONO. Procure dormir o suficiente para reparar o cansaço e que lhe faça sentir-se bem. Importante manter um padrão de sono regular. Se tiver dificuldades para dormir, busque estratégias de relaxamento e higiene do sono.
  3. FAZER ATIVIDADE FÍSICA. Diariamente, mexa seu corpo. Exercícios aeróbicos praticados regularmente, cerca de 20min por dia, tem um efeito antidepressivo e contribuem para regulação emocional. Se você buscar uma atividade que gosta, ainda terá a satisfação ao praticar.
  4. EVITAR SUBSTÂNCIAS QUE ALTERAM O HUMOR. Álcool, cigarro, outras drogas, alimentos gordurosos ou com muito açúcar, cafeína…Alimentos prazerosos podem trazer um alívio da tensão do momento, mas também nos deixam mais vulneráveis às oscilações de humor no longo prazo.

Não só estes recursos sugeridos pela autora da Terapia Comportamental Dialética são úteis para o momento atual. Você mesmo talvez tenha suas próprias formas de se cuidar e que lhe ajudam nos momentos difíceis. Finalizo minha aparição por aqui lembrando do que o psicólogo inglês, Paul Gilbert, fala sobre nosso processo de regulação emocional. Gilbert aponta para o poder da compaixão (e autocompaixão) como forma de tranquilizar nosso estado de sofrimento e suavizar os efeitos do estresse no nosso organismo.

  1. SER COMPASSIVO: A compaixão envolve reconhecer a presença da dor, aceitar que somos humanos e, como tais, passíveis de viver momentos difíceis e de dor. A dor faz parte das nossas vidas, e é natural querermos aliviá-la. Entretanto, se adotarmos uma postura gentil e acolhedora com nossa própria dificuldade, ativaremos em nós mesmos condições para repararmos o que nos faz sofrer em um ambiente de segurança e amparo.

Somos capazes de aprender a acolher ao invés de criticar. Experimente fazer isso consigo mesmo. Cuide de você, e assim estaremos todos cuidando do nosso mundo. E por enquanto, fique em casa.

 

 

 

Compartilhe

Sobre o Autor
Maria Eduarda D. de Alencastro
Maria Eduarda D. de Alencastro
CRP 07/21833 Psicóloga graduada pela PUC-RS, especialista em Terapia Sistêmica e em Terapias Comportamentais Contextuais pelo CEFI, tendo realizado formação complementar em Terapia Comportamental Dialética (DBT). Participou de treinamento intensivo em Terapias Contextuais realizado no CIPCO em Córdoba, Argentina. É membro da equipe de DBT do CEFI Contextus e coordena grupo de Treinamento de ... ver mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *