Em busca da sabedoria, ou, A dialética do ir em frente

“Moderação em todas as coisas” – Aristóteles

“A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria” – William Blake

 

Quando o sábio grego (384-322 AC) pensou sua famosa frase, me questiono qual era o contexto – isto é, quem eram os interlocutores, que experiências ocorreram – pois é só no contexto que creio que podemos começar a entender algum evento. Mas, de lá pra cá, creio que essa frase foi usada brilhantemente por muitos outros sábios. Também, pela sua amplitude e falta de precisão, acredito que tenha sido usada de maneiras equivocadas.

 

Afinal, como sabemos qual é a medida moderada de cada coisa, senão pela experiência?

 

Enquanto profissional da saúde tenho muitas atribuições. Uma delas é a prescrição de fármacos. Quando inicio um fármaco, prefiro iniciar com uma dose baixa, e aumentar progressivamente. Como saber a hora de parar de aumentar? Oriento os pacientes: aumento a dose enquanto não estivermos satisfeitos com o efeito, aumento a dose enquanto não surgirem efeitos colaterais não toleráveis e enquanto estiver abaixo da dose comprovadamente segura. Isso significa que, a cada momento, estamos flertando com o excesso.

 

Não se trata de um texto psiquiátrico, pois não só na prescrição de medicamentos isso acontece. Em todos momentos da nossa vida somos interrogados se teremos coragem de ir em frente, e prudência de reavaliar as consequências deste ir em frente, de medir seus riscos e benefícios.

 

Um exemplo menos clínico: quando comecei a fazer musculação seguindo determinado método, há uns bons quinze anos, havia, na academia, um sujeito fabulosamente grande. Na época, ele realizava determinado exercício com uma determinada carga. Eu sempre imaginava que, quando colocasse aquela carga, seria musculoso como ele! Mas uma coisa me chamava a atenção. Ele tentava poucas vezes aumentar aquela carga, mas com uma quantidade de peso muito elevada. Sempre falhava. Um dia perguntei porque não punha apenas mais meio quilo de cada lado da barra. “Um quilo não é nada”, ele me respondeu. E assim seguiu com dificuldades de ir em frente. Neste caso, sobrava coragem – mas faltava prudência.

 

(Uma nota pessoal – eventualmente cheguei a colocar o dobro de peso que o sujeito colocava no tal exercício – e nunca fiquei nem perto de ser tão musculoso quanto ele. Suspeito que ele usava de métodos, digamos, complementares…)

 

Acredito que, quando o maravilhoso poeta  (1757-1827) sugeriu o excesso, ele não sugeriu a estupidez de parar de investigar, refletir, planejar – o mesmo buscava a sabedoria, afinal de contas, a perfeita lucidez. Entendo que, para tal, é necessário estar disposto a correr alguns riscos. É claro que não é necessário reinventar a roda. Afinal, nas palavras de um conhecido budista portoalegrense, “Não sugiro experimentar doses moderadas de plutônio”. Podemos nos utilizar do aprendizado alheio (com o melhor nível de evidência) para acelerar nosso desenvolvimento rumo a uma vida corajosa, prudente e sábia.

 

E talvez a maior sabedoria resida em buscar sempre a sabedoria, sem ceder ao medo diante dos riscos, sem ceder ao impulso de não ponderar.

 

“Se já tentaste,

Já falhaste;

Não pensa o pior:

Tenta novamente,

Falha novamente,

Falha melhor”

 

Samuel Beckett (1906-1989)

Compartilhe

Sobre o Autor
Emmanuel Kanter
Emmanuel Kanter

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *