Algumas armadilhas no caminho para a Aceitação

Desde que comecei a estudar as Terapias Comportamentais Contextuais, em especial a ACT, para a minha prática profissional (e estudar é algo que gosto bastante), eu intuitivamente passei a tentar aplicar para a minha vida os princípios e processos de mudança propostos pela abordagem. O objetivo da ACT é desenvolver repertório de Flexibilidade Psicológica, que é a habilidade de contatar o momento presente de forma mais plena, como um ser humano consciente, e mudar ou persistir em um comportamento servindo valores escolhidos, dada a situação presente. O objetivo final da Flexibilidade Psicológica é construir uma vida que vale a pena ser vivida, com maior vitalidade.

Isso é feito desenvolvendo habilidades para ser capaz de estar presente e tomar perspectiva, aceitar a totalidade das experiências no presente, ter clareza das experiências que são valiosas para si e ser capaz de engajar-se em atividades que as produzam. Se eu fosse tentar colocar em outras palavras, diria que é um caminho para viver a vida como ela é, tentando tirar o melhor proveito dela.

Porém, este caminho não é óbvio, nem fácil. Precisamos estar constantemente renovando nossa atenção e disposição para estar com a experiência que tivermos no momento presente. Mesmo tentando seguir em aceitação, que é esta habilidade de dar espaço à experiência, às vezes algo parece errado, e eu noto algumas armadilhas de controle na minha experiência. Por vezes, me percebo tentando praticar aceitação para atingir algum objetivo específico; às vezes aceitando apenas parte da experiência, ou então impondo certas condições para a aceitação, de forma a tornar outras condições inaceitáveis. A forma que consigo perceber estas pistas é nos momentos em que me percebo preso em quantidades consideráveis de sofrimento. Nesses momentos, a minha mente diz ter a resposta, dizendo que “se eu aceitar isso (mas não aquilo), vai ficar tudo bem”. Mas nem sempre é assim que acontece na experiência. É possível que o sofrimento só esteja aumentando, ou que o que é valioso esteja ficando mais distante. Quando noto alguma dessas coisas acontecendo comigo, é um forte indicador de que estou esquivando da minha experiência, que é o contrário da aceitação. Chamamos na ACT de esquiva experiencial quando empregamos esforços para controlar, modificar ou evitar aspectos da nossa experiência que não estamos dispostos a sentir, o que por sua vez é amplamente associado a indicadores de sofrimento psicológico e predisposição a psicopatologias em diversos estudos.

Aceitação é um processo de ativamente permitir que a nossa experiência seja o que ela é. Não é possível aceitar parcialmente, assim como não é possível pular sem tirar os dois pés do chão. A aceitação é total. Ela pode funcionar de forma parecida com quando vamos tomar uma injeção. A injeção e a dor que ela provoca com toda certeza virão. O medo é um sentimento natural nesta situação, e o impulso pode ser tentar lutar ou fugir, e acabar contraindo o corpo. Quem já teve a experiência de fazer uma injeção com o músculo contraído sabe que dói muito mais. Quando desistimos de lutar contra o medo dessa experiência e deixamos o nosso corpo relaxar, a injeção ainda vai acontecer e ainda vai doer, mas pode doer consideravelmente menos. Enquanto a aceitação não é garantia de evitar a dor, a luta contra a experiência é frequentemente geradora de mais sofrimento.

A aceitação também não é algo que conseguimos fazer porque “precisamos” fazer ou porque assim nos foi dito. Na teoria da linguagem que embasa a ACT, a RFT (Teoria das Molduras Relacionais), chamamos de pliance os comportamentos que fazemos sob influência do que outras pessoas nos dizem para fazer ou esperam de nós. Mesmo que o próprio Steven Hayes, o criador da ACT, esteja nos recomendando aceitar, somente nós temos acesso à nossa experiência para aprender a partir dela. Somente nós sabemos o que é valioso. Permitir e entrar em contato com as nossas experiências é o que vai dar sentido a elas. São elas que nos dizem o que é valioso para nós.

É a partir do momento em que somos capazes de perceber na nossa experiência quais coisas fazemos para entrar em contato com o que é importante que podemos aprender com a nossa própria experiência e agir em função dela. Na RFT, chamamos isso de tracking, quando agimos de certa forma porque sabemos a partir da nossa experiência que isso costuma produzir coisas importantes para nós. Nós aceitamos porque talvez este seja justamente o caminho não trilhado. O caminho que pode nos levar para um resultado diferente, com consequências potencialmente melhores.

Este texto é de autoria do estagiário da equipe CEFI Contextus – Guilherme Jacobsen

Compartilhe

Sobre o Autor
Mariana Sanseverino Dillenburg
Mariana Sanseverino Dillenburg
Mariana Sanseverino Dillenburg - CRP 07/27708 Psicóloga graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestranda no Grupo de Pesquisa Avaliação e Atendimento em Psicoterapia Cognitiva Comportamental (GAAPCC) coordenado pela professora Margareth da Silva Oliveira na PUCRS. Especialização em andamento em Terapias Comportamentais Contextuais pelo CEFI/CIPCO. P... ver mais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *