Uma vida plena também é uma vida com sofrimento

Em nossa vida geralmente buscamos sensações boas, prazerosas e idealizamos imagens da mais plena felicidade. Acho que essa busca não só é necessária como também é natural, enquanto seres humanos que significam e representam o todo que nos permeia. Afinal, não há nada mais confortável do que belas imagens de alegres sorrisos com pessoas que amamos em uma tarde de sol, por exemplo.

 

Não à toa, a mídia e toda nossa cultura explora nossa busca pela felicidade, nos relembrando através de produtos e serviços que a felicidade é o único caminho aceitável em nossas vidas. E se não a atingimos? Bem, é porque não estamos fazendo algo direito, pois o tempo todo ela está sendo ofertada. Muitas vezes vemos na clínica de psicologia essa demanda, como se fossemos pessoas capazes de simplesmente implantar a felicidade na vida das pessoas. 

 

Discordo dessas simplificações que fazemos de questões que são mais amplas, complexas e difíceis do que realmente gostaríamos. E por mais inconveniente que possa parecer essa problematização, vejo como necessária. Necessária, pois no momento em que pensamos que só a felicidade nos aguarda, nos fechamos para todas as outras experiências inerentes à nossa vida.

 

Quanto mais negamos emoções aversivas como medo, raiva e tristeza mais negamos a nós mesmos, pois essas emoções também fazem parte de todas as vivências que carregamos conosco, de quem nós somos em nossa completude. No momento em que não aceitamos experienciar o medo, a raiva ou a tristeza, é aí que essas emoções vão nos atormentar mais. De forma disfarçada, como um coiote vestido de ovelha que consome um rebanho. Exercitando todo um malabarismo para simplesmente não enxergarmos que certas coisas estão ali, e estão ali porque naturalmente tem de estar. 

 

Tem de estar, pois nós seres humanos experienciamos todas essas mesmas emoções no contexto em que sobrevivemos e nos adaptamos como espécie, inevitavelmente fazem parte de nós. Faz parte de nós termos a raiva para enfrentar, o medo para nos alertar, e a tristeza para assimilarmos a perda de algo significativo. 

 

E os artifícios que usamos para nos livrar desses sentimentos não fazem com que eles simplesmente sumam, mas com que nos consumam emocionalmente, com compensações e excessos para evitar experiências que nos constituem. Não nos relacionando com o mundo e com nós mesmos de uma forma fluída e flexível. No momento em que não queremos sentir, só estamos fugindo, e essa não é uma forma que funcione para resolver situações ou ter uma vida valorosa.

 

Não é uma forma que funcione para resolver situações, porque aquela sensação desagradável não some, quando nós não queremos experimentá-la. Pelo contrário, ao não sentir ela genuinamente, não podemos tomar ações que tragam uma melhor resolução.

 

E também não é uma forma que funcione para se ter uma vida valorosa, porque quando só nos preocupamos em evitar determinadas coisas, só conseguimos o alívio, e por melhor que o alívio possa ser em algum momento, só ele não nos aproxima das coisas significativas para nós. Então, a busca por nos afastar das experiências que nos façam mal, faz com que passemos a estar preocupados, em alerta constante por esses sinais. Dessa forma também nos afastando de tudo aquilo que tem valor em nossos dias.

 

E por mais difíceis que algumas emoções sejam pela forma como sentimos ou percebemos em nossa história, elas fazem parte de todos nós. O que melhor podemos fazer é conviver com essas emoções desagradáveis, reconhecendo e validando todos os  nossos lados, ao invés de fingir que eles não existem.  Em perspectiva com o que nós somos como resultado de toda nossa história, de tudo que já vivemos e da forma como aprendemos a nos relacionar com o mundo. Desse jeito, podemos observar com mais carinho e atenção todos os processos que fazem parte de nós.

 

Assim, uma vida plena  é uma vida que envolve também o sofrimento, e o desconforto dessas emoções. Plenitude é experienciar tudo o que nos envolve, podendo compreender, validar e continuar apesar dessas situações conflituosas, difíceis  e frustrantes que possam existir. Afinal, só conseguimos estar na vida de uma forma completa, quando experienciamos de forma genuína todas as emoções que permeiam ela, sejam as que trazem felicidade ou sofrimento. Dessa maneira, podemos contemplar e ser receptivos com nós mesmos, tendo o contato com o inevitável de uma forma acolhedora, dando o respectivo valor a tudo o que a vida nos proporciona.

 

E você, como tem experienciado as suas emoções?

 

Este texto é de autoria do estagiário da equipe CEFI Contextus – Pedro Barbosa Behrends

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Sobre o Autor
Mariana Sanseverino Dillenburg
Mariana Sanseverino Dillenburg - CRP 07/27708 Psicóloga graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestranda no Grupo de Pesquisa Avaliação e Atendimento em Psicoterapia Cognitiva Comportamental (GAAPCC) coordenado pela professora Margareth da Silva Oliveira na PUCRS. Especialização em andamento em Terapias Comportamentais Contextuais pelo CEFI/CIPCO. P... ver mais

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