Seus valores, suas escolhas, uma direção.

Sempre me questionei sobre as sutis diferenças dessas três palavras que nos levam a algum lugar, que nos dão direção e nos impulsionam: Valores, Escolhas e Decisões. E agora, estudando, me aproximei desses conceitos na perspectiva da ACT, e como fez muito sentido para mim quero compartilhar com vocês.

Tendo como referência as ideias de Hayes, Strosahl & Wilson, valores são consequências livremente escolhidas, são uteis porque nos ajudam a escolher entre as alternativas, nos fornecem uma bússola, uma direção. Escolhas não são explicadas, justificadas, guiadas por avaliações verbais e julgamentos, ou seja as formulações verbais não são a causa para uma escolha. Uma escolha é uma seleção entre alternativas que não é feita especificamente por determinadas razões, embora em geral seja feita na presença de razões (porque somos seres verbais). Escolhas nos remetem à liberdade, a não coerção, não tem certo ou errado, sugere flexibilidade, abertura para experiências versus controle, não uma decisão ou julgamento.

Já decisões são baseadas em razões, que são formulações verbais de causas e efeitos: porque devo fazer X e não Y? Elas são explicadas, justificadas, guiadas por processos verbais de tomada de decisão, como prós e contras, prever, avaliar. Uma decisão é uma seleção entre cursos de ações alternativas feitas por uma razão.

Podemos até fazer uma analogia entre mente racional: decisão; e mente sábia: escolhas.

O processo de fazer contato experiencial com os valores é uma das experiências clínicas mais íntimas na ACT. As pessoas sabem, intuitivamente, que aquilo com que mais se importam também é o que mais podem machuca-las, então guardam essas áreas a sete chaves.  Também pode-se encontrar discrepâncias entre direções valorizadas e comportamentos atuais, o que pode ser um grande motivador para mudanças de comportamento, sendo assim, os valores podem ser potencializadores para uma boa conversa terapêutica.  Outro benefício relevante é que a pessoa pode se dar conta que a vida está acontecendo agora e não em um lugar distante no futuro.

Eu tenho clareza das áreas mais valorizadas na minha vida: trabalho, espiritualidade, amizades, família e parentalidade, sempre me pergunto que tipo de terapeuta, facilitador de grupos, amiga, esposa e mãe eu quero ser? Estou sempre em busca da minha melhor versão com muita autocompaixão.

Também temos que ficar atentos aos outros fatores que podem influenciar os valores (pliance e counterpliance), ou seja, declarações de valores controlados. Seja pela presença do terapeuta, da cultura, dos pais, do  “tem que”, ou carregados de ruminação sobre o passado e/ou futuro. Claro que de alguma forma somos controlados por tudo isso, mas é importante identificar se a remoção dessa influência afetaria ou não a nossa direção na vida.

Quando domínios valorizados foram negligenciados por longo tempo, a simples ideia de pensar e escolher ações nessas áreas pode gerar ansiedade, fusão e esquiva, portanto o trabalho inicial de flexibilidade psicológica e identificação das fontes principais de fusão vem bem antes de pensar em ações de compromisso.

Outra possibilidade frequente é confundir valores com objetivos. Um valor é uma direção, uma qualidade de ação, não podem ser mantidos e adquiridos num estado estático, eles devem ser vividos. São meios para um fim, são coisas valorizadas que podem produzir um fim. Estar saudável pode ser um valor, mas na real a proteção da saúde nos possibilita a fazer coisas que são valorizadas na vida, como poder brincar com seu filho, poder viajar. Ter saúde está a serviço do que? Se livrar da ansiedade está a serviço do que? Se você não estivesse ansioso o que estaria fazendo que lhe diria que você está vivendo uma vida que valha a pena ser vivida?

Já viver uma vida focada em atingir objetivos significa estar conectado a um constante estado de privação, tentar ser feliz atingindo um objetivo é viver num mundo onde o que é importante nunca está presente. Embora esses estados possam gerar motivação e ação direcionada, igualmente pode extrair sensação de vitalidade.

Então a melhor forma é usar os objetivos como um meio de se engajar num processo de mudança valorizado e apontar nossos esforços nessa direção, momento a momento, vivendo verdadeiramente bem aqui, bem agora.

 

REFERÊNCIAS:

Hayes S. C.; Strosahl K. D. & Wilson K. G. Terapia de aceitação e compromisso: o processo e a prática da mudança consciente. Tradução: Sandra Maria Mallman da Rosa; revisão técnica: Mônica Valentim.. 2.ed. Porto Alegre- RS: Artmed, 2021.

 

 

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Sobre o Autor
Vanessa Stechow
Vanessa Stechow
Psicóloga (PUCRS). MBA em Gestão de Pessoas com ênfase em Estratégia (FGV/RS), Didata em Dinâmica dos Grupos (SBDG) e qualificação como Analista PDA (Personal Development Analysis). Formação Internacional em Coaching Executivo Organizacional - Metodologia Ontológica Transformacional com Leonardo Wolk, em Líder Coach pelo ICI e The Coaching Clinic – Corporate Coach U. Formação em Coaching de Equ... ver mais

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