Rir é o melhor remédio

Lembro-me nitidamente de um exercício comandado por um dos professores que tive durante a especialização em terapias contextuais (são comuns exercícios práticos durante o estudo das terapias contextuais de terceira geração). Pois bem, a tarefa proposta pelo professor era a de que cada um escrevesse o texto para a própria lápide e o objetivo era o de poder se conectar com os pensamentos, emoções durante a prática, com o significado de cada palavra, cada frase. Que palavras, que frases me identificariam, me definiriam? Que valores são importantes para mim? O que é importante para mim?
Dentro de um tempo limitado que me pareceram longas horas, vi-me pensando em possíveis frases que não me pareciam de todo genuínas ou adequadas para aquilo que sentia, uma dúvida constante do que fui para os outros e do que fui para mim. Em determinado momento, caiu em minha mente, com a leveza de uma pena que flutua com o vento e lentamente acomoda-se ao solo, uma frase que se encaixou para aquele momento em que eu vivia e que adequadamente caberia para definir-me e foi então ela a escolhida para estar em minha lápide como o propósito do exercício: “Ri muito.”
Após o término do exercício, o professor pediu um feedback de quem quisesse participar e ler o que constava na própria lápide. Lembro que este momento foi de bastante desconforto pra mim, vi-me assolada por pensamentos, julgamentos, emoções, vergonha, medo; meu coração batia rapidamente, o ar parecia que mal dava conta de insuflar meus pulmões; recordo que o mal estar dava-se enquanto ouvia o relato dos colegas lendo frases que eu julguei enriquecidas, “ótima terapeuta…zelosa mãe…filha carinhosa…”; e perante estas lápides, o que seria a minha que não uma descrição pobre e vazia? Estes eram meus julgamentos naquele momento e senti vergonha do que escrevi por algum tempo, evidentemente que não li o que havia escrito perante a turma, pois meus julgamentos acabaram por ceifar minha ação e me calaram.
Alguns meses após, tive a oportunidade de comentar com algumas pessoas sobre o exercício e senti-me à vontade para falar sobre a fatídica frase de minha lápide. Contrariamente a tudo que havia imaginado, tive um retorno muito positivo, ouvi destas pessoas algo que me enriqueceu e encheu meu pensamento de carinho e calor, algumas palavras foram de que rir é algo muito especial, único e que ter uma vida na qual se possa experienciar o rir, o fazer rir, torna esta vida muito válida e significante.
O ato de rir promove a contratura de vários músculos, liberação de endorfina, aumento da frequência cardíaca, respiratória, há artigos que mostram melhora do sistema imunológico, vascular somente com boas gargalhadas. Também pode servir para atenuar experiências que promovam desconforto, como por exemplo, a ansiedade provocada por ministrar uma aula e a diminuição deste mal estar usando o humor como uma ferramenta de alívio da angústia. Rir e fazer rir sempre foram fiéis escudeiros que me salvaram de situações nas quais a vergonha me paralisava, o medo me anestesiava. Como bom parceiro o fazer rir rapidamente melhorava meu desconforto e fazer o outro rir sempre foi muito gratificante. Os pensamentos, as associações, as frases engraçadas andavam primordialmente para auxiliar-me em momentos de maior tensão e desconforto pra mim e posteriormente começaram a servir também em situações nas quais não estava com nenhum mal estar, apenas queria fazer o outro rir para rir também e sentir-me bem; ter a sensação de bem estar que o riso me proporciona.
Na turbulência da vida veloz, muitas vezes e, corretamente, recorremos a hábitos saudáveis que nos proporcionam bem estar, então convido a vocês adicionarem a estes hábitos, um que é bastante simples e de um efeito grandioso, o hábito de rir, de sorrir, de fazer rir. Muitas vezes na correria do dia a dia, irritamo-nos com pessoas, horários, prazos, trabalho e esquecemos de rir. O convite a dar boas gargalhadas no intervalo do trabalho, dos estudos é simples. Pare, respire fundo, escolha um vídeo engraçado, veja uma comédia (indico “toc toc”, Assista a “Toc Toc”), ouça um familiar contando as peripécias da infância, veja fotos da sua infância, ria, sorria, faça rir e promova a alegria e a diversão. Experimente dar uma risada!
Para terminar, deixa eu te perguntar uma coisa, você já riu ou fez alguém rir ou sorrir hoje?

Filme “toc toc” https://www.netflix.com/title/80233962?s=i&trkid=13752289

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Sobre o Autor
Cláudia da Rosa Muñoz
CRM 30457 Médica graduada pela UfPel, psiquiatra pela Fundação Universitária Mário Martins, Título de Especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria, Curso de Aperfeiçoamento em Terapia Comportamental Dialética pelo CEFI/CIPCO e de Especialização em Terapias Comportamentais Contextuais na mesma instituição. Participou de treinamento intensivo em Terapias Contextuais real... ver mais

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