Pequenas Pausas

Semana passada dei uma oficina de Mindfulness para profissionais da saúde e nessa oficina conversávamos sobre a correria que nós sentimos no dia a dia, sobre a percepção de sempre termos demandas para dar conta e essa sensação de que precisamos estar produzindo algo em todos os momentos em que estamos acordados. Não sei vocês, mas eu normalmente me noto cansada e ansiosa quando me sinto experimentando essa sensação a maior parte do tempo. Então, dentro desse assunto, falamos sobre as pausas e a importância de trazê-las para o nosso dia a dia. As pausas se referem a fazer pequenas pausas ao longo do dia para soltar um pouco esse modo automático de produzir, produzir, produzir ou dar conta das tarefas e simplesmente usufruir daquele momento, do que está acontecendo ali, se entregando a essa atividade. 

Podemos fazer essas pequenas pausas através de uma habilidade chamada Mindfulness (ou Consciência Plena). Mindfulness é uma prática para treinar nossa atenção e onde a colocamos, nos permitindo ter mais consciência do que está ocorrendo conosco no momento presente. Então, intencionalmente colocar a sua atenção no momento presente, ou seja, no que está sentindo no seu corpo, que emoções nota (e talvez onde se pode notá-las no seu corpo), o  que está percebendo com seus cinco sentidos, que pensamentos e julgamentos você nota que surgem na sua cabeça nesse exato momento, etc.

Quando estamos num modo mais automático costumamos estar dentro da nossa mente, imersos em nossos pensamentos (por exemplo: “não posso esquecer de fazer isso, isso e isso depois”, “não estou conseguindo dar conta”, “meu Deus, é muita coisa”, “droga, me esqueci de fazer isso”… e por aí vai, você pode completar aqui com os pensamentos que você costuma ter no seu dia-dia) e perdemos a sensibilidade para o ambiente e o que estamos vivendo. Você nunca chegou em algum lugar e se deu conta de que não se lembra de como chegou lá? Como se você tivesse “desligado” a sua atenção durante o caminho? Ou terminou uma refeição e se deu conta de que nem lembra o que estava comendo ou do processo de comer? Isso ocorre porque nesses momento estamos no modo automático, ou seja, fazendo as coisas mas sem prestar atenção nelas. 

Mas por que fazer pequenas pausas? Visualize esse cenário: trabalhar 24 horas por dia. Nossa, que horror, mas isso é absurdo, ninguém consegue fazer isso, não seria nem saudável! Mas de certa forma não acabamos fazendo mais ou menos isso? Ok, eu sei que 24 horas é exagerado porque tem as horas que estamos dormindo, mas fora essas, se estamos constantemente em nossas mentes, acordamos pensando no que temos que fazer, ou pensando que vai ser um dia cheio, tomamos banho pensando na nossa lista de tarefas pro dia ou pensando em uma atividade do dia que será desafiadora e por aí vai, acabamos de certa forma mergulhados em nossa mente analisadora grande parte do dia. E podemos ir assim até a hora de dormir e seguir fazendo isso nos outros dias. O problema com isso é que, além de aumentar a probabilidade de ficarmos estressados ou adoecer de outras formas, também faz com que acabemos perdendo as nossas vidas. Porque a realidade é que a nossa vida ocorre no presente. Logo fazer pequenas pausas nos permite reconectar com a nossa vida e estar mais presente nela, vivendo a vida em sua plenitude.

Há algumas formas que podemos fazer essas pequenas pausas que vou compartilhar e pode ser que você também tenha outras formas de fazer isso e que também funcionam. Você pode fazer as pequenas pausas com uma atividade, se entregando a ela. Por exemplo, quando estiver comendo, coma, se entregue a essa atividade com a curiosidade de uma pessoa que está fazendo isso pela primeira vez. Observe a comida, como ela é? Que cores ela tem? Qual o seu formato? Ela é lisa ou tem relevos? Que outras característica dela você pode observar com a sua visão? Pelo que você está vendo, parece algo comestível? Observe também a comida com o seu olfato, que cheiros você sente? Um cheiro mais doce? Mais salgado? É possível identificar algum ingrediente que compõe essa comida pelo cheiro dela? É possível sentir um vapor quente da comida no seu nariz? Pelo cheiro, parece algo comestível? Se possível (dependendo do tipo de alimento) explore-o com o seu tato. Qual a textura desse alimento? Mais áspero ou mais liso? Tem algum relevo nele que você pode sentir com o toque? Pela textura desse alimento, parece algo comestível? Por fim, explore esse alimento com a sua boca, colocando-o na boca mas não mastigando imediatamente. Sinta a textura desse alimento dentro da sua boca, é possível notar alguma reação no seu corpo ou na sua boca ao colocar o alimento dentro da boca? Como fica a sua saliva? Quais gostos você sente? Mastigue devagar a comida notando onde você sente mais presente o gosto dela na sua língua, a textura da comida e como ela vai se transformando à medida que você mastiga. Por fim, quando engolir a comida, note até onde você consegue sentir a comida descendo pelo seu aparelho digestivo. Da mesma forma que você pode fazer essa pausa e se observar enquanto come, você pode fazer isso durante suas outras atividades cotidianas como: escovar os dentes, tomar banho, lavar a louça, dirigir, no ônibus, caminhando e assim por diante. Você não precisa necessariamente fazer todos esses passos que eu descrevi, mas pode fazer uma pequena pausa durante o processo de comer para se observar e ver o que nota.

Você também pode fazer pequenas pausas durante suas atividades, como pequenos intervalos. Por exemplo, quando estiver trabalhando ou estudando, pode parar um momento e simplesmente observar sua respiração com curiosidade notando todo o processo desde a entrada e a saída do ar. Ou pode notar a sua experiência sensorial nesse momento como o peso dos pés no chão ou a sensação das mãos em contato com a mesa ou o braço da cadeira. Você também pode parar por um momento e se observar: o que estou sentindo nesse momento? Quais são os pensamentos que estão presentes? Que sensações sinto no meu corpo agora? E depois voltar ao trabalho ou à sua atividade anterior. Fazer essas pequenas pausas já nos ajuda a nos tornar mais conscientes do que está acontecendo com a gente e também mais conscientes das nossas necessidades. Fazer isso também nos ajuda a tomar perspectiva das nossas sensações. Por exemplo, posso estar sentindo um desconforto como uma angústia no trabalho e se eu paro para olhar noto que sinto um aperto no peito e noto um pensamento “não vou dar conta”. Se eu paro para me observar eu posso me dar conta de que isso está acontecendo comigo e não é apenas uma angústia que eu não sei da onde vem. Isso me ajuda a olhar essa experiência com mais perspectiva e uma certa distância, porque fazendo isso posso observar que é apenas um pensamento e não uma verdade sobre mim. 

Podemos fazer isso com uma postura aberta (com curiosidade para notar o que está ali), gentil e sem julgamentos (notando a nossa experiência naquele momento, mas sem julgar o que estamos sentindo ou notando e sem julgar nossos julgamentos também). Assim, além de nos tornarmos mais conscientes e presentes na nossa vida, também nos sentimos mais no comando dela, podendo notar nossas experiências e fazer escolhas de para onde ir a seguir ao invés de simplesmente ir no piloto automático. Vamos experimentar?

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Sobre o Autor
Mariana Sanseverino Dillenburg
Mariana Sanseverino Dillenburg
Mariana Sanseverino Dillenburg - CRP 07/27708 Psicóloga graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestranda no Grupo de Pesquisa Avaliação e Atendimento em Psicoterapia Cognitiva Comportamental (GAAPCC) coordenado pela professora Margareth da Silva Oliveira na PUCRS. Especialização em andamento em Terapias Comportamentais Contextuais pelo CEFI/CIPCO. P... ver mais

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