Os objetos da história e a história dos objetos

Tive meus 4 avós. Com cada um aprendi coisas diferentes, muitas coisas que constituem quem eu sou hoje. A vó Georgina, amorosa e doce no tratamento com as pessoas, nos recebia com aquele sorriso lindo e largo. Lembro que levou leite quente na cama nas poucas vezes em que dormi na casa deles. Nunca esqueci daquele gesto de amor, a vó de camisola azul clarinha com aquele copo de leite e aquela mão macia. O Opa, nos dava beijo na testa, adorava um esporte [pena que não herdei esta parte 🙁 ], valorizava a espiritualidade, e o que foi muito importante para mim, ele olhava para o que dizia me constituir especial, como ele achava e como fazia eu me sentir. O vô Nestor, com sua alegria de viver, aquele prazer que tinha em sentar à mesa com a família…“ah..coisa boa comer”, dizia o vô. Foi um exemplo de união familiar. A Oma, uma mulher independente, valorizava a beleza e a delicadeza dos detalhes, tinha nos livros um grande companheiro, e dividia com a gente a história da vida dela e da nossa família.

Para esta escrita, minha mente julgadora me fez colocar na ordem de quem perdi primeiro, por que escolher quem vem primeiro dentro de mim é emocionalmente difícil. Amei e amo todos os 4 com todo meu coração. Agradeço por ter conhecido e compartilhado tantos momentos da minha vida com eles. Choro agora. Saudade? Dor de saber que não estarão aqui de carne e osso, no “mundo dos sentidos”,  para me ver realizando coisas que com eles aprendi. Construindo uma família, transmitindo os valores que com eles aprendi, fazendo as receitas que faziam, curtindo programas que curtiam, levando no parque as crianças como faziam o vô Nestor e a vó Georgina. “Como está o coração?”, o vô me perguntava. Acho que por vezes não fui muito boa em cuidar dele♥, mas isto fica para um outro texto. 

Falo dos meus avós por que a inspiração para esta escrita veio do que estamos hoje vivendo em família. O apartamento da Oma, última a se despedir de nós, está sendo desocupado para ser ocupado por uma das netas dela, minha irmã mais velha. Ao longo de 3 anos, desde o falecimento dela, minha mãe e minha tia se encontram lá semanalmente. O objetivo central sempre foi organizar e dividir as coisas entre elas. Só que estes 3 anos foram muito mais do que isso, foram de relembrar e recontar histórias, reviver emoções, acessar sentimentos guardados, fortalecer a relação delas como irmãs. 

As histórias não estão lá no apartamento, não estão aqui e agora acontecendo no “mundo dos sentidos”. Elas acontecem hoje no nosso corpo, na nossa memória, nas sensações que evocam em nós. E está tudo bem. Que bom que temos a capacidade de reviver e sentir por meio da nossa mente. As histórias têm objetos. Olhamos para os objetos e eles estavam lá, na história da nossa vida. Olhamos para eles agora e acessamos histórias das quais eles participaram. Os objetos têm história

A cadeira rosa que tenho hoje na minha sala, esteve nos últimos 40 anos no quarto da Oma. O prato oval de inox que na minha casa tem múltiplas utilidades, era a “cama” do peru de Natal durante quase toda minha vida na casa da vó Georgina e do vô Nestor. A necessarie marrom florida ganhei da vó numa Páscoa na adolescência, com uma caixa de bombom e duas barras de chocolate dentro, e lembro da minha emoção quando a vó me deu aquele presente se desculpando por que não era um ovo de chocolate. Mal sabe ela o quanto aquele presente me tocou. Tenho uma lembrança física daquela Páscoa e do amor da vó, além de tudo que carrego dentro de mim. O Opa me deu alguns livros sobre paz interior e autoconhecimento, que estão lá na casa da minha infância (onde moram minha mãe e meu pai), assim como vários outros objetos da minha história que também têm seu lugar ainda lá. Aqui comigo tenho um peso de livro, de pedra, que estava num arquivo do escritório dele e que quando ele faleceu, ficou para mim. 

Escrita nostálgica essa minha. O que tem a ver com este blog? Fiquei fazendo links de todas estas histórias com algumas questões relacionadas ao que na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) se chama “mundo da mente” e “mundo dos sentidos”. O mundo da mente é este que acontece ‘’dentro da nossa pele’’, o que pensamos, sentimos, lembramos…por vezes direcionado ao passado, por vezes ao futuro e por vezes ao presente. O mundo dos sentidos é o que acontece ‘’fora da nossa pele’’, é o que percebemos com os 5 sentidos, o que vemos, tocamos, o que nosso corpo faz, os aromas, os gostos que experimentamos. Passar a vida no mundo da mente é estar preso. 

Descreve-se por  flexibilidade psicológica a nossa capacidade de estar aqui e agora, observar o mundo com os sentidos, identificar o que eu experimento (pensamentos, emoções, sensações), aceitando esta experiência como ela é, sem julgá-la ou controlá-la (como geralmente nossa mente faz).

Quando olho para cada um destes objetos, experimento um ‘vai e vem’ de mundo dos sentidos e mundo da mente, num equilíbrio que me evoca alegria, saudade, boas lembranças. Também  me desperta tristeza por não ter meus “véinhos” (como carinhosamente os chamava) aqui do meu lado, no mundo dos sentidos – em que eu pudesse tocá-los com as minhas mãos, abraçá-los com os meus braços, sentir o cheirinho deles, dar aquele beijo na bochecha e ganhar aquele beijo na testa que o Opa sempre dava. Quantas boas marcas me deixaram no mundo da mente (e do coração?) toda aquela vida que vivi no mundo dos sentidos. 

Então.. a vida é o que acontece aqui e agora, o que experimentamos na relação com as pessoas no momento presente. O que passou é nossa história, constitui quem nós somos e acessar estas história nos aciona uma infinidade de emoções. Porém, só possível relembrar com detalhes estas histórias, porque lá, o momento presente predominou.

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Sobre o Autor
Martha Wallig Brusius Ludwig
Martha Wallig Brusius Ludwig
Martha Wallig Brusius Ludwig CRP 07/13821 Psicóloga graduada pela Pucrs. Atua como psicoterapeuta individual na clínica há 15 anos. Trabalha com capacitação e supervisão de profissionais da saúde (nutrição, enfermagem, psicologia) para melhorar motivação e adesão a novos comportamentos, assim como com orientação de grupos de treino de pais. Atuação com grupos interdisciplinares de mudança do e... ver mais

1 comentário em “Os objetos da história e a história dos objetos”

  1. Lindo Marthinha! Emocionante! Felizes os tem e tiveram a felicidade de conviver com seus antepassados e guardarem tantas lembrancas matavilhosas! Parabéns! Bj

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