O SENTIDO DA DOR

Dentre as tantas espécies que habitam este planeta, eu gostaria de trazer apontamentos sobre a nossa espécie no seu processo evolutivo. Nossos corpos foram se moldando, desenvolvemos linguagem, capacidade de representar mentalmente tudo o que está ao nosso redor e o mundo transformar. O rápido avanço tecnológico que alcançamos, especialmente nas últimas décadas, nos coloca – aparentemente – muito distantes de quem um dia fomos lá nos primórdios da humanidade. Construímos meios de transporte, lares confortáveis, temos fontes de alimentação rápida e devidamente estocada, inúmeras formas de entretenimento e de comunicação. Me parece fantástico tudo isso que o ser humano é capaz de inventar e descobrir. Graças a isso, temos uma vida mais protegida, combatemos doenças e planejamos os passos futuros da sociedade. Atribuímos valor para muito além dos recursos básicos de sobrevivência, criamos bens, status, estabelecemos parâmetros para definir o que é ter sucesso na vida. Afinal, o ser humano está constantemente indo atrás de inovação para melhorar sua qualidade de vida aliviar o seu sofrimento.

Certamente muitas fontes de ameaça à nossa sobrevivência já foram combatidas, mas mesmo para aqueles que vivem em locais privilegiados e desenvolvidos e têm acesso ao melhor smartphone, o carro mais seguro, um bom cargo em seu trabalho, a vida segue tendo adversidades. Frente a elas (adversidades), aumentamos nossos recursos para lidar com problemas, mas ainda sim, sofremos. Ao olharmos para o lado e vemos algo que não podemos ter, sofremos. Ao olharmos para o lado e vemos o que o outro não pode ter algo importante, sofremos também. E mais, não conseguimos tolerar a dor que sentimos. E com isso, sofremos.

Mesmo com a “sofrência” caindo no gosto musical popular do brasileiro, imagino que quase ninguém afirme que gosta de sofrer, de se sentir triste ou abandonado. Nos julgamos inadequados, nos comparamos e criticamos a nós mesmos quando percebemos qualquer possível falha, e criticamos os outros quando identificamos suas falhas também. Atribuímos à dor um significado de fraqueza ou qualquer outro adjetivo que seja “pejorativo”, e me parece compreensível que não queiramos sentir aquilo que nos torna fracos.

Todavia, como já dizia a filosofia budista, o sofrimento existe, ele nos aponta as necessidades de mudança para nos mantermos em equilíbrio. É inevitável passarmos por essa experiência, ainda que tentemos não passar. Eu mesma, quando vejo, estou tentando não sofrer. Acontece que, quando alguém se depara com uma dor, como sentir tristeza por não ter cumprido com algo que gostaria muito de ter feito, facilmente na tentativa de aliviar essa tristeza pode cair num abismo de sofrimento e ruminação. Às vezes, o alívio se dará com uma “lição de moral”, outras vezes a pessoa tentará se distrair no celular, deixando de fazer o que precisa, e em outras irá comer algo gostoso com a sensação breve de recompensa. Todas essas estratégias possivelmente serão acompanhadas de culpa e pensamentos de inadequação quando elas não forem efetivas para a situação.

E talvez seja importante aqui diferenciarmos a dor do sofrimento, pois lembro com frequência daquela frase “a dor é inevitável e o sofrimento é opcional”. Dor pode ser a experiência de tristeza por ter perdido a carteira com seus documentos; sofrimento é pensar “sou uma tonta mesmo, não consigo nem guardar minhas coisas direito” “só posso ter um problema”. A dor nesta situação, nos aponta por uma necessidade não atendida, por algo que não pode ser concretizado, e que ótimo que nosso organismo reage nos lembrando do que precisa ser lembrado. Esta é parte da função das nossas emoções, nos comunicar sobre o que é importante. De alguma forma, aprendemos a nos proteger dessa dor, nosso organismo reage de forma automática e busca o caminho mais rápido para cessar o que incomoda. E aqui entra o papel da linguagem, que nesta tentativa aliviar o desconforto, automaticamente, associa o que estamos sentindo ou fazendo a outros significados, e muitas vezes nos anuncia suas ideias em tom de julgamento e avaliação – “só posso ter um problema”. Aí então, nos encontramos com o sofrimento. Mas não é só a dor e as emoções que nos comunicam sobre o que está acontecendo, nossos pensamentos também nos sinalizam algo importante, o difícil é reconhecermos que estamos apenas pensando, e que pensamentos não são necessariamente fatos. Caso consigamos apenas observá-los, talvez perceberemos que eles só estão tentando redirecionar o caminho que tomamos para outro mais coerente com aquilo que queremos ser. 

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Sobre o Autor
Maria Eduarda D. de Alencastro
Maria Eduarda D. de Alencastro
CRP 07/21833 Psicóloga graduada pela PUC-RS, especialista em Terapia Sistêmica e em Terapias Comportamentais Contextuais pelo CEFI, tendo realizado formação complementar em Terapia Comportamental Dialética (DBT). Participou de treinamento intensivo em Terapias Contextuais realizado no CIPCO em Córdoba, Argentina. É membro da equipe de DBT do CEFI Contextus e coordena grupo de Treinamento de ... ver mais

1 comentário em “O SENTIDO DA DOR”

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