O que é ser corajoso?

Às vezes em terapia falamos sobre a coragem. Esse termo até faz parte de um modelo de terapia comportamental contextual: a psicoterapia analítica funcional, também conhecida como FAP (da sigla em inglês). Nesse modelo, busca-se desenvolver certas habilidades que permitam à pessoa vivenciar suas relações interpessoais de maneira mais plena e construir relações íntimas. Além da coragem, o modelo teórico da FAP inclui os termos consciência e amor, sobre os quais podemos falar em um outro momento.

Voltemos à coragem, então. Quando falo em coragem, essa palavra me remete aos filmes e livros de cavaleiros medievais em que um guerreiro destemido enfrenta seus inimigos para salvar um povo oprimido ou lutar por um ideal. Pode ser que essa palavra remeta você a outras imagens, mas aposto que um tema deve fazer parte dessas imagens que surgem: coragem parece ter a ver com não ter medo.

Faz sentido igualar coragem a não ter medo, uma vez que é geralmente esse sentimento que nos impede de agir como aquele guerreiro do filme que vai e faz o que é necessário para atingir o objetivo, custe o que custar. Não ter medo parece ser a condição para agirmos de forma coerente com o que é importante para nós, mesmo quando o que precisa ser feito exige muito mais do aquilo que julgamos que somos capazes. Quando o medo é um obstáculo, geralmente o que nos vemos dizer é que “eu quero fazer isso, mas tenho medo”; ou ainda “se eu não tivesse tanto medo, faria isso”. Vemos pessoas que fazem aquilo que nos parece difícil e pensamos “que corajoso!”, “nossa! como é que você não tem medo de fazer isso?”. Ao longo da vida, passamos por situações em que o medo nos impede de fazer o que queremos, e vemos pessoas que consideramos corajosas conseguindo fazer essas coisas. Logicamente, concluímos que o medo é o oposto da coragem.

Mas quando falamos em coragem no modelo das terapias contextuais, não é bem a isso que nos referimos. A principal diferença é que nesse ponto de vista o medo não é o oposto, ele é parte da coragem. Na realidade, entendemos que a coragem envolve acolher o medo e dar espaço para ele em nós mesmos. Coragem é saber sentir medo e reconhecer esse sentimento como mais um aspecto da experiência de fazermos o que é importante e de evoluirmos na construção da vida que queremos viver. O medo é como um sinal de que estamos indo além do que já é conhecido. Ser corajoso, portanto, não é não sentir medo quando se avança em terreno desconhecido, mas é saber avançar caminhando lado a lado com o medo. Ser corajoso é se aproximar do próprio medo e torná-lo um conhecido nosso – um amigo até.

Mas, como é que vamos nos aproximar do medo, fazer amizade com ele, se tem sido um obstáculo para tanta coisa importante para nós? Faz sentido essa pergunta, não? Por que diabos o nosso guerreiro corajoso vai parar para escutar seu medo, se o importante é salvar o reino do dragão? Uma razão que vemos nas histórias, quando o guerreiro aprende a reconhecer o valor de personagens medrosas que antes rejeitava ou desvalorizava, é que geralmente elas o suavizam, elas o sensibilizam para ver o mundo com mais nuance. Mas para isso, é preciso parar para prestar-lhes atenção, dedicar-se a escutá-las e considerar seu ponto de vista.

O medo pode ser um grande interlocutor, pois ele pode falar de assuntos bem interessantes: ele nos fala do que é importante para nós e do que não queremos perder. O medo também nos fala de habilidades e características nossas que ainda estão começando a se desenvolver, que ainda não exercitamos muito ou nas quais ainda não temos plena confiança. O medo nos conta histórias sobre o que é vulnerável em nós. Ele nos ajuda a prestar atenção no que pode ser uma ameaça a nós ou àquilo que nos é importante. Eu diria até que o medo é um reflexo da importância que atribuímos ao nosso bem estar e ao bem-estar daquilo ou daqueles que amamos. Faz sentido fazer amizade com alguém assim? Para mim, sim.

Vendo a coragem dessa outra perspectiva, não como oposto ao medo mas como a habilidade de acolher esse medo e proceder com ele ao nosso lado em direção ao que nos é valioso, fica mais viável ser corajoso para realizar a vida que queremos viver e nos tornarmos a pessoa que queremos ser. Isso porque já não é preciso eliminar um sentimento que sempre esteve aí para ser quem eu quero ser, mas sim me familiarizar com ele, conhecer seus trejeitos, suas belezas e feiuras, e aceitá-lo como companheiro de viagem.

Na psicoterapia, então, o convite que fazemos quando falamos de desenvolver coragem não é para lutar e derrotar seu medo, mas sim para se tornar mais amigo dessa parte de você mesmo. E isso pode ser aprendido quando o terapeuta nos convida a observar nosso medo, de longe. Inicialmente, e pouco a pouco, convidando a nos aproximarmos dele, ficando ao nosso lado tanto quanto for necessário para facilitar a construção dessa nova amizade. Pode ser que se comece essa aproximação escutando as opiniões que o medo traz sobre o mundo e sobre o que acontece ou pode vir a ocorrer; ou notando o que as palavras e a própria presença dele fazem com seu corpo; agradecendo a ele pelos seus comentários. Ao chegar perto do medo, você poderá lhe fazer gentilmente um outro convite: para que acompanhe você na jornada em direção ao desconhecido. No espírito dessa coragem que não quer destruir o medo, você pode fazer o convite garantindo a ele que fará tudo o que for possível para cuidar dele e respeitá-lo, e que voltarão dessa jornada não só trazendo as belezas que encontrarem do lado de lá, mas também transformados no modo como se relacionam um com o outro: o medo e você voltarão mais amigos e mais próximos. E ele vai contar a você das opiniões que tem e dos segredos que sabe. Talvez ele até conheça alguns atalhos.

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Sobre o Autor
Lucas A Schuster de Souza

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