O efeito abóbora das reuniões familiares


Passados 21 dias do mês de janeiro, pós Natal e Ano Novo, período no qual os encontros com a Grande Família de origem muitas vezes se estabelecem, creio ainda ser pertinente falar destas reuniões, visto que até o ano “começar”, após o carnaval, temos alguns bons dias de convívio com a família, principalmente para aqueles que estão em férias e estão na praia, junto aos pais, irmãos, tios, primos, avós, gatos, cachorros e papagaios respectivos.

A adultez e com ela a independização, promovem com que possamos ter hábitos, comportamentos, ideais de rotina diferentes de nossos progenitores. Nossos horários de refeições, dormir, acordar se estabelecem de forma associada ao que achamos melhor e aos valores e pensamentos que temos em relação à nossa vida. Também se constituem baseados no que já deu certo, por exemplo: “se eu dormir às 23h, tenho uma boa noite de sono e uma melhor qualidade de trabalho no dia seguinte”. Quando crianças nos condicionamos a horários e rotinas ensinados por nossos pais. Quando adultos e longe das “regras da família”, passamos a elaborar uma rotina que nos cabe melhor.

As reuniões de família, muito frequentes neste período, podem ser estressoras. Usando alguns conceitos da física, é como se numa casa de praia com toda a família reunida, há uma população de prótons, uma de elétrons e, satisfatoriamente, há os nêutrons. Muitas vezes, um tempo alargado em família pode precipitar reações físicas e gerar atrito, por isso, é interessante que possamos estrategicamente saber quando ir embora.

A efetividade interpessoal, um dos pilares da Terapia Comportamental Dialética, nos presenteia com alguns conceitos e estratégias salutares de como podemos lidar com situações de mais estresse e esgotamento.  Muitas vezes a alternativa mais indicada é priorizarmos a relação com o outro e é neste quesito que está o objetivo deste ensaio, um ensaio de como dançar a valsa e sair antes da carruagem virar abóbora, sem esquecer o sapatinho de cristal na escada. De nenhuma forma estou nos comparando com vegetais, especificamente abóboras, mas o conceito de “prazo de validade” se aplica a cada um de nós.

A estratégia é nos conhecermos e, de conhecimento também do outro e de suas características, podermos  estabelecer qual é o nosso prazo e agir antecipadamente antes que a abóbora estrague.

Respeitando a característica de que somos seres sociais e dependemos das relações sociais para viver, pode haver muito prazer e bem estar quando estamos em família e também podem ocorrer conflitos. Às vezes, é muito mais saudável para nós e para nossos parentes quando nos encontramos várias vezes por um período mais curto de tempo. Por exemplo, em vez de passarmos 2 meses numa casa com nossos pais elétrons, um cachorro nêutron e nós enquanto prótons, podemos arquitetar vários períodos mais breves de contato mais genuíno com a família. Podemos ficar alguns dias com eles e voltarmos para o nosso habitat e para nossa rotina, sem a necessidade de ficarmos o tempo da Guerra da Secessão com nossa família, pois isso pode gerar esgotamento de ambas as partes.

Diante de tudo isso, minha dica é: frente a um encontro de família, saiba quando chegar e quando sair. Jogue estrategicamente o jogo da vida e das relações mas não transforme ou deixe este jogo virar “war”. Não estamos aqui para “eliminar belicamente um país/contato”, estamos aqui para priorizarmos o tempo que verdadeiramente nos faz sentir bem quando próximos à família.

Quando em encontros familiares, eleja o seu prazo de validade e defina antecipadamente a sua hora de expirar.

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Sobre o Autor
Cláudia da Rosa Muñoz
Cláudia da Rosa Muñoz
CRM 30457 Médica graduada pela UfPel, psiquiatra pela Fundação Universitária Mário Martins, Título de Especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria, Curso de Aperfeiçoamento em Terapia Comportamental Dialética pelo CEFI/CIPCO e de Especialização em Terapias Contextuais de Terceira Geração na mesma instituição. Participou de treinamento intensivo em Terapias Contextuais ... ver mais

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