Não dá

Queria conseguir realizar mais coisas, me organizar melhor, aproveitar mais meu tempo. Tantas coisas novas que gostaria de aprender, tantas coisas antigas que seguem por fazer, tantos planos engavetados. Queria aproveitar melhor o tempo. Esse momento em que há uma ruptura no fluxo de como a vida costumava seguir, em que a rotina muda radicalmente devido ao distanciamento social, traz à tona esse impulso de retomar velhos planos e de otimizar minha vida. Na tentativa de encaixar esses planos no dia a dia, me deparo com uma dificuldade: não dá tempo. Há tanta coisa já ocupando o tempo do meu dia que não parece haver uma brechinha para ler aquele romance do Dostoiévski ou fazer fermento caseiro, ou rever meu filme preferido pela sexagésima vez, ou voltar a aprender música. Tanta coisa, mas parece que não tem jeito de encaixar isso no meu tempo.

Bem, mas deve haver um jeito, não é? Deve ser porque não estou me esforçando o suficiente. Deve ser porque estou perdendo tempo demais olhando o celular, ou comendo ou dormindo. Sim, então quem sabe acordar mais cedo? Já não acordo tão tarde, é verdade. Mas 5:30, por que não? Ou quem sabe usar as madrugadas? Deixar de surfar pela internet naqueles minutos entre um compromisso e outro e ler uma ou duas páginas do tal do romance? Parar de ficar olhando pro nada depois de comer e pegar o violão para treinar umas escalas. Enquanto a filha dorme, checar o fermento, sovar um pão? Aprender uma língua depois que todo mundo em casa dormiu? Por que não?

Dia desses, numa dessas surfadas aleatórias na internet, aliás, li um texto de uma psicóloga australiana que me foi muito útil para responder a essa pergunta. O título do texto é “just get up earlier” (só acorde mais cedo). Nele, ela explora justamente esse recado que a psicologia popular nos passa de que podemos – ou devemos – aproveitar melhor nosso tempo e que podemos dar conta de todas essas coisas fazendo alguns sacrifícios como acordar mais cedo. Nesse texto, Koa nos lembra que os conselhos da psicologia popular costumam trazer algumas boas ideias embutidas e parecerem muito plausíveis, eles parecem óbvios até, mas ela expande a reflexão e nos mostra que o que os torna inviáveis na vida real é que deixam de reconhecer aspectos singulares da vida das pessoas. No meu entendimento, são bons porque são simples, mas não são bons porque não são complexos o suficiente para contemplar a realidade de nossas vidas. Não, não é só acordar mais cedo e pronto. Não é só cortar meus momentos de simplesmente relaxar, de só estar, ou mesmo abdicando do meu sono que a vida vai ficar melhor. Antes de seguir conselhos fáceis, devemos fazer o trabalho complicado de refletir sobre o que de fato acontece. É bem possível que nossas vidas estejam já bem cheias de atividades e que essas atividades sirvam a propósitos importantes. Descansar pode ser um propósito bastante importante na vida de uma pessoa.

Ao invés da luta contra nós mesmos e da cobrança por não conseguir seguir um conselho simples como “acorde mais cedo”, podemos seguir um caminho um pouco menos usual: aceitar que, mesmo dando o melhor de nós mesmos a cada momento, pode ser que não consigamos dar conta de tudo. Reconhecer nossa falibilidade e as limitações que o tempo e as circunstâncias nos impõem e viver de acordo com as possibilidades que temos no momento pode ajudar a direcionar nossa energia para aproveitarmos verdadeiramente e mais plenamente aquilo que é possível. Pode ser útil também lembrar que cada um tem seu próprio ritmo de levar as coisas, e esse ritmo é algo complexo e dependente de uma infinidade de aspectos das circunstâncias e história de cada pessoa. Um conselho simples de só fazer algo dificilmente vai servir para melhorar uma realidade complexa. Em conclusão, considero que é, sim, importante refletirmos sobre o modo como usamos o tempo que temos, sobre o que são nossas prioridades e quais são as ações do dia a dia que nos aproximam do que é importante para nós, mas também é útil acolhermos a experiência de que talvez não haja tempo para tudo, ou que talvez nosso tempo hoje seja diferente de nosso tempo ontem, e diferente do tempo de outras pessoas. E isso não é o fim do mundo. Isso é, na verdade, o princípio da realidade. Tem coisas que não dá.

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Sobre o Autor
Lucas A Schuster de Souza
Lucas A Schuster de Souza
Psicólogo, formado pela UFRGS, especialista em Psicoterapia de Técnicas Integradas pelo Instituto Fernando Pessoa. Tem formação em Terapias Comportamentais Contextuais e em Terapia Comportamental Dialética pelo CEFI/CIPCO, e mestrado em Psicologia Clínica, pela PUCRS, onde contribui com o Grupo de Pesquisa em Avaliação e Atendimento em Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais - GAAPCC - na re... ver mais

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