Improvisando para sobreviver

Quando o planeta colapsa e a insegurança impera em todos os âmbitos da vida, bagunçando o que parecia organizado, nos deparamos com o que fica de tudo isso. Depois do choque, da incredulidade, da frustração, da indignação, o que ainda nos serve de âncora?

  O que de fato importa pra cada um nesse mundo, afinal de contas? Não o que é bonito dizer/postar/parecer. O risco de vida pode nos fazer viver as nossas reais necessidades. Para mim, está sendo como redescobrir o que é vital. Como quando a gente entra num ambiente poluído visualmente com o intuito de deixá-lo mais clean, e começa a tirar o que é supérfluo, excessivo. Confesso que, com um certo tino para acumulações, é mais fácil do que se imagina descuidar-se das inclusões.

Sinto falta de abraçar meus amigos, de sentir os cheiros dos lugares onde caminho, de ver meus pacientes nos olhos ao vivo. Não sinto falta de dirigir, de sair com tanta frequência nos finais de semana, de almoçar fora. Confesso que a rotina não está fácil, mas me sinto dando muito mais valor as pausas, aos aconchegos, a estar inteira em conversas difíceis, a notar a importância de descansar. O senso de urgência também me parece mudar: se não vou conseguir defender o mestrado no prazo, acontece. Quero saber se meus familiares estão seguros. Se vou me atrasar para reuniões mesmo estando em casa, eu compreendo. Preciso ajudar meus filhos na resolução de algum conflito sobre-qualquer-coisa. Me parece uma reflexão importante perceber o que é mais fundamental na nossa forma de levar a vida. E isso é único e intransferível.

Um outro convite acessível a qualquer um está na maneira de lidar com essa pandemia. As crianças não estão gastando tanta energia como poderiam ou aprendendo todos os conteúdos curriculares desejáveis, a crise financeira que se instaura levará tempo para se dissolver, são inúmeras as aflições inerentes a possibilidade de perda daqueles que amamos, dentre tantos outros desafios. Ainda assim, disponibiliza-se à todos uma grande habilidade: a de aprender a enfrentar o inesperado.

A pandemia escancara a inevitabilidade das surpresas, a ilusão de controle que achamos possuir. De forma alguma estou sendo grata à Pandemia ou tentando ver o lado bom das coisas. Veja bem, a minha proposta é outra. Podemos nos frustrar. Podemos, também, aprender a nos virar, a reativar antigos conhecimentos, a pedir ajuda. Podemos improvisar, e essa é uma habilidade de ouro, que não se compra pronta.

Escutando um podcast sobre improviso, muito antes de imaginar que tudo isso aconteceria, percebi que tendemos a achar que quem improvisa “vai lá e faz qualquer coisa”, de forma mal feita inclusive. Doce engano. Improvisar nada mais é do que a capacidade de nos adaptarmos, momento a momento, a nossa experiência presente. Parece antagônico ao planejamento, mas não é. Fazemos adaptações em pequena escala todos os dias quando o caminhão de lixo para na nossa frente e atrasamos para uma reunião, ou quando recebemos uma ligação inesperada. Somos agora convocados de forma muito mais intensa a improvisar. E isso exige uma maior conexão com nossa realidade, com a realidade do outro e com as coisas ao nosso redor. O improviso também nos traz a perspectiva de receber de braços abertos nossa experiência, sem escolher, selecionar ou definir o que gostamos. É claro que é difícil aceitar as coisas como estão, mas parar de lutar com a realidade dói menos. Fingir que nada está acontecendo ou viver reclamando de tudo que está diferente não muda a realidade, mas interfere em nosso humor, em nossas perspectivas e em nossas atitudes. Essa flexibilidade é necessária e esbanja saúde.

E incrivelmente, temos opções! Tenho feito 25 minutos de Yoga umas 4 vezes por semana. Passei os últimos semestres dizendo que não tinha tempo de ir a nenhum lugar extra ou colocar mais uma atividade na minha rotina. Agora, eu vou para sala. Meu horário favorito de praticar Yoga é pela manhã, bem cedo. Quando não dá, faço junto com minha cachorra e meus filhos pulando em cima de mim. Ou então paro. Novamente, meu ponto não é performance, ou a famosa exigência por produtividade, mas sim  vislumbrar as infinitas possibilidades que sempre estiveram ali mas que nem sequer eram notadas.

Sairemos dessa crise e seguiremos em frente. Vai passar. Sabemos que sim. Desejo que as marcas e os rastros desse momento nos permita crescer enquanto seres humanos no futuro. As pessoas se perguntam o que será que levaremos adiante quando tudo isso terminar. Para mim, levaremos o que quisermos seguir investindo. E tomara que os nossos improvisos nos ajudem a perceber as direções que realmente queremos tomar. 

 

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Sobre o Autor
Gabriela Damasceno
Gabriela Damasceno
CRP 07/19660 Psicóloga graduada pela UFRGS. Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental pelo instituto WP e especialista em Terapia de Casal e Família pelo CEFI. Formada pela primeira turma do curso de Especialização em Terapias Comportamentais Contextuais pelo CEFI/CIPCO, com formação complementar em Terapia Comportamental Dialética (DBT). Tem experiência clínica no atendimento individ... ver mais

2 comentários em “Improvisando para sobreviver”

  1. Oi estava com muito medo que tive que sair de casa com minha filha de 9anos . pressão do meu ex marido me desencadeou o medo me cobrando ver minha filha se cuidados e dizendo que só ele na poderia vê lá . fiquei com muito medo de não saber cuidar dela e algo de ruim acontecer.

    1. Olá Carine. Me parece que foi uma situação dasafiadora mesmo e compreendo que tenha sentido medo. Gostaria de te avisar que nossa esquipe está realizando atendimentos de psicoterapia online e ficamos à disposição caso necessite de maior ajuda. Abraços

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