EMOÇÕES PRA QUE TE QUERO

Eu achava que seria mais feliz se não tivesse algumas sensações difíceis. Cresci pensando que a ansiedade era minha inimiga. Brincava na minha mente que se alguém tivesse uma fórmula para não sentir mais aquilo eu estaria salva – de mim mesma. Morria de raiva dos meus irmãos, sempre “de boa”, levando a vida escolar na marcha lenta, enquanto eu fazia todos os temas e não ia para prova alguma sem me preparar.

Costumava pensar que quando minha ansiedade e vergonha baixassem eu conseguiria viver a vida que sempre sonhei. Eu iria então poder relaxar e curtir mais a vida; me posicionar em grande público; me aproximar de alguns guris interessantes; ir contra situações que não concordava, como o bullyng, e inclusive ser atriz.

Meu momento de estrela seria quando estivesse plena, confiante, tranquila. Quando as pessoas pudessem me olhar e pensar: “Nossa, essa guria está totalmente segura de si, não tem medo, vai sem hesitar”. Nunca aconteceu.

Até hoje meus melhores momentos foram recheados de emoções, inclusive as mais desagradáveis. No meu casamento ao ar livre choveu intensamente e me frustrei muito. Em grandes apresentações lembro de sentir muita vergonha. Conhecer meu marido e me aproximar dele me deixou morrendo de medo. Ter o prazer de conviver com meu avô e perdê-lo me deixou imensamente triste. Ao mesmo tempo, todos esses momentos não perderam seu brilho.

Quando comecei a estudar as terapias contextuais ainda lembro do choque: não precisamos então nos livrar das sensações desagradáveis? A ideia é justamente outra, as emoções fazem parte da nossa condição de seres humanos e querer se livrar delas constantemente é parte do problema. Me explico: sinto ansiedade quando dou aula, o que por si só não é um problema, mas quando meu foco é não sentir ansiedade, uma boa estratégia seria não dar aula. Nesse exemplo isso seria uma lástima para mim, uma vez que valorizo meu desenvolvimento profissional.

Da mesma forma, é incrível como uma emoção difícil pode começar a ativar outras, dependendo da forma como lidamos com ela. No mesmo exemplo, se decido ainda assim dar a aula e noto ansiedade, é possível que ao querer controlar minha ansiedade possa começar a me sentir irritada e então culpada por estar ansiosa e com raiva… Todas essas emoções secundárias normalmente são menos úteis, desagradáveis, e podem sugar muita nossa vitalidade. Ainda assim, é importante pontuar que a esquiva das emoções faz parte da nossa evolução enquanto espécie e é extremamente necessária em nossas vidas. A perda de alguém que gostamos pode trazer muita tristeza; se esquivar, por vezes, dessa sensação pode ser útil para seguir nossa rotina usual, por exemplo. O problema acontece quando ficamos presos nesse processo de evitação, de forma rígida e constante, abrindo mão de uma vida valiosa para nós.

Nessa luta contra as emoções, algumas perguntas podem ser úteis: Ela reduz seus sintomas no longo prazo? O que essa estratégia custa em termos de saúde, energia, vitalidade, relacionamentos? Isso te aproxima da pessoa que você gostaria de ser ou da vida que gostaria de levar? A partir desse panorama, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) tem por foco dois grandes processos: desenvolver nossa aceitação às experiências internas, as quais não temos controle, e cultivar ações que nos aproximem de uma vida significativa para nós. Ou seja, a ideia é poder sentir o que sentimos e ainda assim caminhar na direção do que é importante para nós. Fácil? Nem um pouco. Cada dia por vez, cada momento um novo momento.

Através da prática de mindfulness podemos abrir espaço para observar essas sensações e pensamentos incômodos, com curiosidade e atenção. Sim, percebo minha vergonha quando falo em público. Ontem mesmo notei um calorzinho no meu rosto e uma vontade de me esconder enquanto procurava por uma caneta que estava bem ali. Ao notar tudo isso decidi compartilhar com o grupo, e o fato rendeu algumas risadas e também uma rica análise em cadeia. E noto que a energia que antes usava para ocultar minha vergonha parece que fica livre em mim, me dando chance de focar em coisas que considero mais úteis.

Através desse processo, comecei a perceber também outras camadas da experiência que não percebia antes. Pude, por exemplo, notar que minhas emoções desagradáveis tinham também funções muito úteis pra mim. Relembrando minha infância, percebi que conseguia, motivada pela ansiedade, estudar e me sair muito bem nos estudos enquanto meus irmãos se divertiam nas mil recuperações; que minha vergonha por vezes tinha relação com fazer coisas engraçadas, e fiz muitas amizades a partir daí, etc.

E quando estou no consultório e me deparo com pedidos, declarados ou implícitos, para que eu ajude meus pacientes a evitar que essas emoções atrapalhem tanto, uma vozinha lá dentro grita “sim, eu conheço esse lugar”. Pra mim hoje o contexto terapêutico é um ponto de embarque, onde convido meu cliente à uma jornada de exploração ao seu próprio mundo interno, a tomar perspectiva, a notar o que funciona ou não para lhe aproximar da vida que deseja. E tenho certeza de que o que vivencio enquanto pessoa é o que mais me ajuda enquanto terapeuta. O sonho de ser atriz, por ora, não brilha mais em mim, mas a liberdade de poder sentir o que sinto, sem a necessidade de atuar minhas emoções, é indescritível.

Sobre o Autor
Gabriela Damasceno
Gabriela Damasceno
CRP 07/19660 Psicóloga graduada pela UFRGS. Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental pelo instituto WP e especialista em Terapia de Casal e Família pelo CEFI. Formada pela primeira turma do curso de Especialização em Terapias Contextuais de Terceira Geração CEFI/CIPCO, com ênfase na Terapia de Aceitação e Compromisso e na Terapia Analítico-Funcional. Tem experiência clínica no atendi... ver mais

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