Emoções frequentes na adolescência: quais são e o que fazer frente a elas?

Uma das lembranças mais nítidas da minha adolescência é a intensidade das emoções que eu tinha, ainda que os problemas na minha vida, com o tempo, fossem ficando mais sofisticados e intensos, com mais responsabilidades e interações com mais pessoas. A adolescência é um período com mudanças biológicas, sociais e interpessoais. Minhas emoções eram regularmente mais intensas, voláteis e eu não tinha as ferramentas para trabalhar com elas como hoje.

Em geral, na adolescência, as emoções chegam como um temporal difícil de controlar. Os adolescentes não sabem o que acontece nem como responder, são experiências novas que atrapalham, confundem e frustram, resultando em ter que buscar resolver a situação com improvisação e indisposição. Eles fazem o que podem com o que eles têm.

Sentir emoções intensas e de longa duração é algo frequente nesta etapa do ciclo da vida, isto incrementa os comportamentos impulsivos e os adolescentes ficam mais sensíveis ou vulneráveis. Muitos pais, professores, médicos ou familiares tentam moderar o que está acontecendo, mas ainda que reconheçam as necessidades de regulação emocional, são poucas as pessoas que oferecem habilidades específicas para lidar com as emoções intensas ou informar sobre elas. Sendo assim, um aprendizado dessas habilidades de regulação emocional é imprescindível para prevenir situações de risco na adolescência (por ex comportamento suicida, autolesões, abuso de sustâncias, etc.) e incrementar a qualidade de vida.

Algumas das emoções mais frequentes na adolescência e como se poderia lidar com elas:

Frustração: emoção que aparece quando não acontece algo que esperávamos, ou não é do jeito que pensávamos. É uma emoção que motiva o adolescente a se afastar da situação, não falar, ou expressar as coisas de um jeito pouco efetivo.

No momento em que o adolescente se afasta da situação ou não fala sobre o que está pensando ou sentindo, parece que a emoção diminui. O resultado em longo prazo é deteriorar ainda mais a situação. Uma alternativa nesse momento é conseguir tolerar a frustração, observar o impulso, ter perspectiva do que é mais útil nesse momento e agir de acordo com o que se precisa e não com o que sente.

A emoção de frustração ajuda a reconhecer que não estão acontecendo as coisas como se esperava e que tem que mudar de estratégia. Sendo assim, conseguir ‘escutar’ o que a frustração tem a dizer no lugar de se afastar dela ajuda a ficar mais próximo do que se quer e buscar outra estratégia para conseguir o que necessita.

Raiva: é uma emoção frequente na adolescência, e ajuda para que a pessoa reconheça que algo importante pode estar em risco e precisa ficar consciente da situação e se cuidar, às vezes colocando limites, às vezes comunicando seu mal-estar, às vezes pedindo por suas necessidades, motivando assim para a resolução da situação.

O problema é que a raiva é muito intensa e a mente julga a situação, fazendo com que o adolescente se sinta envergonhado, ofendido ou magoado e seu comportamento termina sendo mais intenso pela interpretação da situação, resultando em ações que machucam, deterioram a relação com outros, tendo consequências posteriores que podem atrapalhar a vida da pessoa.

Uma alternativa no momento da raiva é aprender a modular a emoção, isto é possível avaliando os fatos sobre a situação para evitar as interpretações e, assim, conseguir agir de forma congruente com o que precisa no momento, sem que a interpretação intensifique a emoção. Depois disso, é imprescindível observar se o impulso do momento é útil para conseguir o que se quer, e se não é tão útil, precisa mudar de estratégia para conseguir mais efetivamente o que precisa. Para que isto seja mais fácil de aplicar nos adolescentes, eles precisam praticar e, se têm um espaço seguro para isto, é mais fácil para consolidar estas habilidades de regulação emocional.

Tristeza: incrementa a sensibilidade e o sistema de consciência da pessoa, permitindo identificar quando algo significativo está se perdendo no mundo externo ou interno, propicia, ainda, reflexão ou introspeção, mas para os adolescentes frequentemente atrapalha.

A experiência de tristeza está relacionada com o dor ou sofrimento, e a resposta habitual é se afastar das situações que fazem sentir a dor.  Ainda que esta estratégia funcione no curto prazo, a pessoa que evita demais começa ter mais perdas, desde se sentir insatisfeita, afastar-se de amigos, parar com hábitos saudáveis ou experiências que dão sentido para o adolescente.

É difícil lidar com a tristeza, por um lado, parece que se a pessoa ficar longe dos estímulos que ativam a tristeza, as coisas vão dar certo, mas, por outro, a realidade é que aumenta o mal-estar. As alternativas nestes casos são variadas. Ficar com pessoas que dão suporte pode funcionar, outras vezes incrementar as experiências positivas ajuda a diminuir os sintomas da dor (por ex.  escutar música, escrever, brincar com o cachorro ou sair para caminhar no parque). E há situações quando a tristeza está relacionada com um problema específico, resolver este problema, pode ajudar.

São muitas coisas que podem ser feitas quando as emoções estão atrapalhando a vida das pessoas, mas é importante colocar as emoções em um contexto construtivo. Cada uma delas tem uma função, comunicam e motivam, ajudam a identificar quando algo significativo está acontecendo, ativam e dão energia ao indivíduo para fazer as mudanças necessárias. Mesmo as emoções mais incômodas ou dolorosas têm sentido de existirem e as pessoas precisam conhecê-las e aprender a escutar a informação que elas trazem. A sugestão para isso é observar qual é a experiência pela qual os sentimentos estão respondendo e consultar, sem julgamento, antes de decidir como agir.

Para mais informações o CEFI está oferecendo um grupo de treinamento de habilidades para regulação emocional para adolescentes.

Veja no site: www.cefipoa.com.br

Compartilhe

Sobre o Autor
José Ignacio Cruz Gaitán
José Ignacio Cruz Gaitán
Psicólogo. Mestre em Psicoterapia. Membro dos Núcleos Cora e Contextus no CEFI. Formado em Terapia dialéctica Conductual pelo Behavioral Tech e com múltiples treinamentos em Terapia de Aceitação e Compromiso, Terapia Analítico-Funcional e diversas terapias Contextuais. Miembro da ACBS Chapter México, Diretor do Centro de Terapia Conductual de Occidente em Guadalajara, México. Co-autor do livro ... ver mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *