Dentro da mente

“Não acredito que estamos indo para um lugar fechado bem no dia em que está fazendo sol. Sou azarada mesmo. Não, na verdade deveria ter olhado  a previsão do tempo melhor. Poderia ter organizado os passeios de forma diferente…deixa eu ver… se tivéssemos ido a esse parque ontem daria tempo de hoje ir para… aff,  mas eles sempre erram a previsão mesmo! Bem, agora o único dia em que as crianças poderiam brincar sem se molhar esgotou-se; amanhã já estamos indo embora e deu. A imagem do gramado ensolarado fica para aqui um milhão de meses quando conseguirmos tirar férias de novo. Que exagero!! Nem tanto assim, começando o mestrado, como vai ser?”

        Tenho uma mente que se agita por vezes. Quando pequena minha mãe me dizia que pensava rápido demais. E meus gestos seguiam meus pensamentos – era rápida nas atividades escolares, ágil em esportes, mais impulsiva na fala… Ainda lembro da minha tentativa infantil de desacelerar meus pensamentos e “pensar devagarinho, só hoje”. Mas eles não me obedeciam! De forma sintética O mundo de Bob* em modo acelerado me representava. Se por vezes acabava sendo repreendida pela agitação ou por antecipar problemas que não tinham acontecido, posso dizer que ser a mulher do padre nunca me preocupou! Pois bem, continuei crescendo e noto que minha mente ainda:

– Faz antecipações, muitas vezes catastróficas.

– Me critica, com ou sem fundamento algum.

– Avalia se fiz ou não a decisão correta e rumina sobre os vários cenários possíveis se tivesse escolhido outra coisa, no momento em que  a escolha já foi feita e obviamente não se pode voltar atrás.

– Viaja, criando cenários hilários e inusitados.

– Foca no lado negativos das situações.

– Compara, julga, e por vezes remói sobre o passado.

        

Alguém mais? Trago em especial esses recortes porque costumava achar que eu era a única que pensava dessa forma. E bem, de fato tudo isso aí e muito mais são coisas que as mentes fazem. Evolutivamente a linguagem foi peça chave para nossa sobrevivência – antecipando problemas, comunicando sobre os perigos, auxiliando no aprendizado com as experiências passadas… Hoje em dia as ameaças são cada vez menos externas, mas a função de proteção segue a mesma. A mente segue sendo extremamente útil para planejar, criar coisas, imaginar, inventar, tomar decisões, etc. E na mesma medida nos coloca em muitas armadilhas – nos põe para baixo, cria barreiras sobre o que podemos ou não fazer,  aciona em segundos emoções muito intensas, entre outros.

        Cada mente tem obviamente as suas particularidades, alguns são mais distraídos, outros têm uma tendência maior a se focar no lado negativo das coisa, outros são mais analíticos… Essa complexidade deriva de uma trama de vários fatores: da nossa história de aprendizagem, da genética, dos legados familiares, dos ambientes em que vivemos, etc. Independentemente de como exatamente cada mente funciona, nascemos, vivemos e morremos com a nossa. E se por vezes não podemos mudar a forma como a nossa mente se comporta, podemos mudar a forma como nos relacionamos com ela.

        Seguindo a parte inicial do texto, o que eu me veria fazendo após ter os  pensamentos que relatei seria o comportamento de reclamar. Não uma super reclamação furiosa, apenas um queixar-se-da-vida-por-esporte, um falar das pequenas coisas que não saem como a gente gostaria. Por muito tempo de fato não notava a diferença entre o que eu pensava e como isso afetava as minhas ações. Já teve outros momentos em que comecei a notar como minha mente funciona e isso me gerava muita raiva, a qual trazia mais e mais auto julgamentos. Hoje em dia encontrei a luz! Sou totalmente zen! Mentira. Especificamente nesse dia em que pensava aquele monte de coisas, pude perceber que minha mente estava desse jeito, notei a sensação no peito de mal estar, tive muita vontade de reclamar e… devo ter feito alguma cara, porque meu marido me perguntou “O que foi Gabi?”, e eu logo respondi “ahh, é.. tô um pouco mau humorada com o sol, mas já vai passar”. Rimos, ele não entendeu muito, aumentei o som e seguimos. E foi importante pra mim – naquele contexto reclamar não era o que eu gostaria de fazer.

        Bem, e se estamos dispostos a rever nossa relação com a mente, por onde podemos começar? Para ganhar um certa perspectiva dos nosso pensamentos é importante que possamos primeiramente observar nossa mente, não só no seu conteúdo, mas também na sua forma. Qual é a trilha sonora dos meus pensamentos nesse momento?  Tem algum ritmo especial ? Comparando com a direção de um carro, qual a velocidade que minha mente está agora? Essas são perguntas que nos ajudam a tomar contato com nosso mundo interno. E para que fazer contato como nosso mundo interno? Conhecer a forma como funcionamos pode ser extremamente útil, justamente para quebrar certos automatismos e ciclos viciosos. Essa pequena pausa entre observarmos nossos pensamentos e notar o que fazemos depois pode trazer um pouco mais de liberdade de escolha; um agir mais coerente com o que buscamos na vida.

*desenho animado em que o personagem aparece expondo seus pensamentos numa realidade paralela.

Sobre o Autor
Gabriela Damasceno
Gabriela Damasceno
CRP 07/19660 Psicóloga graduada pela UFRGS. Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental pelo instituto WP e especialista em Terapia de Casal e Família pelo CEFI. Formada pela primeira turma do curso de Especialização em Terapias Contextuais de Terceira Geração CEFI/CIPCO, com ênfase na Terapia de Aceitação e Compromisso e na Terapia Analítico-Funcional. Tem experiência clínica no atendi... ver mais

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