Contextualizando a alimentação

A relação que construímos com a alimentação inicia logo após o nascimento. Comer é uma das primeiras formas de nos comunicarmos com o mundo. Através dela aprendemos a expressar desconforto; a sentir ou não a satisfação; a nos ver diferentes do outro. É também desde cedo que o ato de comer passa a ter outras funções que não apenas a de nos alimentar. Comemos para deixar o tempo passar. Para nos acalmar. Para celebrar uma conquista. Para não explodir de raiva com alguém. E todas essas funções vão fazer parte da relação que vamos construindo com a comida, por vezes mais balanceada, por outras nem tanto.

Os problemas começam quando desenvolvemos um padrão alimentar mais rígido, mais automático, pouco funcional com o estilo de vida almejado. O comer emocional, por exemplo, acontece quando o ato de se alimentar vem atrelado à um gatilho emocional. Frente ao aumento de peso ou a insatisfação com a rotina alimentar, tentamos achar soluções: “preciso emagrecer, não posso mais comer determinado alimento, preciso me criticar a ponto de mudar algo…”. As metas de peso tornam-se, por vezes, mais importantes que o processo de notar o próprio corpo; os extremos também aparecem: “estou gordo” ou “estou magro”. O emagrecer também pode surgir como fórmula mágica para nos sentirmos melhor conosco ou como pura obrigação e desconexão com nosso auto cuidado. É fácil ficarmos preso num ciclo de frustrações, exigências, comportamentos reparadores (a dieta de Segunda-feira, por exemplo!) e mais frustrações.

        As terapias contextuais são úteis nesse cenário! Trazem o olhar para esses ciclos, aumentando a consciência sobre as nossas necessidades no momento e permitindo que se alimentar seja de fato uma escolha. Dessa forma, um dos objetivos é desenvolver um comer intuitivo, isto é, um comer conectado com o nosso corpo e mente, atento aos sinais de fome e saciedade e com maior autonomia. Talvez uma parte difícil e corajosa do tratamento seja perceber o que está para além das refeições, e poder dar espaço para os sentimentos e sensações mais doloridos. Sentindo. Expressando. Ao mesmo tempo, é importante descobrirmos uma forma de acolher o que experienciamos internamente. Desenvolver a autocompaixão é um gesto de amor com a nossa história, com nossas dificuldades, com nós mesmos.

        Por fim, contextualizar a alimentação e efetivamente mudar hábitos não significa se adaptar a uma dieta rígida. Dessa forma, muitas vezes estamos perpetuando a falta de escolha; um olhar apressado sobre o que de fato necessitamos naquele instante. Trata-se de poder estar atento, de notar as consequências do que escolhemos.  “Nesse momento, me alimentar dessa forma, me aproxima ou afasta da pessoa que quero ser?” Uma pergunta simples, mas que tem por trás toda uma filosofia atenta, gentil e corajosa nas tomadas de decisões.

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Sobre o Autor
Gabriela Damasceno

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