Aceitação como recurso de adaptação em situações de crises

Culturalmente fomos ensinados a procurar e manter emoções e pensamentos agradáveis, pois, a partir deste ponto de vista, a felicidade e estabilidade nos são garantidas, além de um bom funcionamento diário. No entanto, quando essas emoções mudam para outras desconfortáveis ​​ou desagradáveis, a tarefa se volta para encontrar uma maneira de neutralizar, mudar e se livrar deles como se fossem a experiência mais desagradável do mundo.

Muitas orientações terapêuticas são consistentes com essa visão, ensinando às pessoas que, sempre que sentirem alguma dor, usem uma substância, respirem fundo ou usem outras estratégias para mudar seus pensamentos e emoções por outras mais agradáveis. Essa visão de reduzir o desconforto pode fazer sentido em alguns contextos, mas, na maioria das perdas (por morte, saúde, etc.) ela confunde a pessoa e, em alguns casos, atrasa o fluxo da dor.

Em outros contextos, afastar-se da dor pode fazer muito sentido, mas quando a dor está relacionada, por exemplo,  à perda de um ente querido, ou das coisas como antes eram, como acontece agora pelo Covid-19, essa dor está tentando nos dizer que as coisas mudaram, e precisamos fazer mudanças em nossas vidas e em nosso mundo interior. O fato de tentar fugir dessa dor apenas adia as mudanças inevitáveis ​​que precisam ser feitas.

Essa dor é natural, normal e esperada quando se perde algo ou alguém que é importante. Como se fosse o outro lado da moeda. Quando alguém quer e se envolve com algo importante, a perda dessa conexão tem sua consequência, é chamada dor e as pessoas a vivem de diferentes formas, de acordo com sua história e características pessoais. Tentar constantemente mudar isso contribui para gerar mais dor e sofrimento.

A aceitação, embora pareça contraditória, é uma das formas mais poderosas de mudança nesse contexto, porque redireciona os esforços da pessoa, pois, em vez de procur
ar maneiras de evitar mal-estar, seu esforço é redirecionado para encontrar maneiras de se adaptar a um novo contexto, conectar-se com o que é importante na perda e continuar com sua vida da maneira que decida viver.

Essa alternativa envolve entrar em contato com a experiência que a pessoa estava tentando fugir, buscando se relacionar com suas próprias emoções, pensamentos, sensações físicas sem tentar detê-las, observando-as e compreendendo-as como parte da paisagem neste momento difícil da vida, enquanto dedica algum tempo trabalhando no que É importante para ela, naquilo que aprecia e valoriza, sem que a experiência interna negativa influencie no que se faz.

O primeiro passo para abordar a experiência de luto, a partir de uma postura de aceitação, envolve perceber e reconhecer sua própria experiência interna, identificando como você se sente e de que maneira surge, e como os impulsos de evitar as situações desconfortáveis aparecem. O segundo passo é a disposição, que se refere a parar de lutar com essa dor e permitir experimentar sem tentar neutralizar ou alterar, implica deixar a dor entrar na vida, sem julgá-la como boa ou ruim, apenas reconhecendo que você está aqui e agora. E finalmente, o compromisso, que se refere à manutenção dessa posição ao longo do tempo, é aplicado porque é importante, não como uma maneira de controle, nem como uma punição, é para trabalhar nas coisas que são importantes e das que você quer em sua vida, procurando se adaptar a essa nova fase, dedicando seu esforço nisso, mantendo comportamentos saudáveis, apesar do que não pode ser mudado.

Photo by Darius Bashar

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Sobre o Autor
José Ignacio Cruz Gaitán
José Ignacio Cruz Gaitán
Psicólogo. Mestre em Psicoterapia. Membro dos Núcleos VIDA, CORA e CONTEXTUS no CEFI. Formado em Terapia dialéctica Conductual pelo Behavioral Tech e com múltiples treinamentos em Terapia de Aceitação e Compromiso, Terapia Analítico-Funcional e diversas terapias Contextuais. Coordinador do Núcleo Vida para a atenção ao risco de Suicidio e Coordinador da especialização em Terapias Comportamentai... ver mais

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