Abraçar o sofrimento?

Este texto aborda o sofrimento a partir da visão das Terapias Comportamentais Contextuais, as quais bebem na fonte da filosofia oriental, principalmente do budismo, o qual refere que a existência do sofrimento humano também pode significar imperfeição, impermanência. E há um ponto inicial: a constatação da existência do sofrimento e de que todos os seres estão sujeitos a ele. Nossa tendência, em geral, é negar. Parece que nos sentimos “traídos” pelo destino quando temos que lidar com as dificuldades da vida. Encaramos estes processes com indignação, isto é, como se não fosse justo nem correto sofrer!

Mas é a consciência do sofrimento que pode ser geradora da energia da sabedoria, não o sofrimento em si mesmo. Sofrer sem sabedoria seria acumular mais confusão e dor. A dor, em si, “com o tempo passa”. A questão é sofrer de uma dor não compreendida.

A Terapia de Aceitação e Compromisso (Hayes, Strosahl & Wilson, 2011) refere que existem duas formas de sofrimento: o sofrimento intrínseco à vida consciente e o sofrimento causado pelas tentativas de evitá-lo e fugir dele. O primeiro é próprio da vida humana: todas as formas de sofrimento físico e mental relacionadas aos ciclos da vida, ao envelhecimento, à doença e à morte, assim como estar ligado ao que se detesta, estar separado de quem se ama e não realizar o que se deseja. O segundo se refere a quando uma coisa compreendida como ruim acontece, e após outra, e podemos achar que estes são momentos de azar, mas, na realidade, isso expressa algo bem mais fundamental: a nossa própria impotência frente à realidade imediata. E, quando estamos impotentes, não temos saída senão aceitar as coisas como acontecem. Essa é a grande sabedoria que as situações de sofrimento contínuo têm a nos ensinar: não temos o poder de mudar algumas coisas.

Outra forma de evitar o sofrimento é quando nos recusamos a admitir a natureza impermanente da vida. Apesar de intelectualmente sabermos que tudo muda constantemente e de modo imprevisível, emocionalmente evitamos esta verdade. Ao aceitar esta realidade nos sentimos inseguros. É preciso encarar o sofrimento para lidar com ele. Isto significa, simplesmente, pôr-se diante dele para conhecer sua natureza, sem julgá-lo como justo ou injusto. Uma das coisas que intensifica a dor de um sofrimento é o sentimento de indignação frente a ele, é a nossa exasperação diante do sofrimento que faz com que ele aumente e tome conta de todo o nosso ser.

Podemos nos apropriar de nosso sofrimento, seja ele físico ou emocional, e dizer para nós mesmos: “OK, está ocorrendo isso comigo. Estou sofrendo e estou aqui para me observar, para me cuidar.” Desta forma podemos nos sentir mais leves e livres para, quem sabe, transformar esta dor.

Uma vez que aprendemos a nos responsabilizar pela maneira como Iidamos com o sofrimento, passamos a entender que não precisamos nos tornar vítimas dele. E nos tornamos vítimas do sofrimento quando não o aceitamos e lidamos com ele como se ele estivesse fora de nós, projetando, assim, a causa de nossa dor nos outros.

Se não formos empáticos com nosso sofrimento, poderemos buscar esta empatia no reconhecimento alheio. lsto é, muitas vezes, sem nos darmos conta, alimentamos o sofrimento por meio de lamentações que nada mais são do que tentativas de sermos reconhecidos pelos outros. Mas, de fato, este reconhecimento pouco nos ajuda. Ao sentir compaixão por nós mesmos é que conseguiremos parar de nos lamentar e decidir, de fato, fazer algo para lidar melhor com o sofrimento.

Gallardo (2021) fala da possibilidade de conquistar a paz interna diante do sofrimento. A consciência daquilo que é preciso aceitar como real e inevitável pode surgir quase de imediato em nossa mente, mas a aceitação emocional do mesmo fato pode levar muito tempo para ocorrer. Costumamos dizer: “Eu entendo, mas não aceito”. A aceitação não é um ponto de acomodação ou de resignação, mas sim um ponto de partida. Afinal, se quisermos transformar algo, precisamos nos apropriar dele.

Não estamos condenados a sofrer para sempre. Portanto, aceitamos o sofrimento para transformá-lo, e não para carregá-lo como uma cruz. Por toda nossa vida, iremos sentir emoções, faz parte de nossa natureza. No entanto, podemos abandonar o hábito de alimentar as emoções destrutivas. Mas, afinal de contas, para que queremos transformar o sofrimento? Só para ter o alívio da dor? Quem já não se pegou falando: “Contanto que eu não sofra, tudo bem”. Será que nosso “sonho” de viver uma vida em paz está baseado apenas na ideia de não sofrer?

Se nossa ideia de felicidade estiver baseada apenas na premissa de não sentir mais dor, viveremos anestesiados pelos mecanismos de defesa que nos impedem de nos mover.

É importante reconhecer que o autoconhecimento depende de nossa dedicação ao mundo exterior. Pois é a relação com o mundo exterior que nos ensina a identificar os nossos limites, assim como potenciais e qualidades positivas. Identificar nossas limitações não é o problema. Mas é preciso aceitá-las. Sermos sinceros conosco. Caso contrário, estaremos sempre transferindo para os outros nossas próprias dificuldades. Por exemplo, quando tratamos os outros com ironia e sem afeto, estamos, na verdade, reagindo a uma dificuldade pessoal e nem nos damos conta de quanto sofrimento estamos criando para os outros e para nós mesmos.

Por fim, lidar com a dor do sofrimento não é uma atitude masoquista nem tampouco manipuladora, mas sim um método para nos movermos, para transformar o sofrimento em paz interna. Isto se refere a estar em contato com a Realidade, em oposição a ser enganado pelos próprios preconceitos, pensamentos. É dar abertura ao que realmente está acontecendo.

Podemos abraçar o sofrimento com a intenção de transformá-lo em autoconhecimento e sabedoria. O convite é viver a vida, ao invés de tentar controlá-la, parar de lutar contra a realidade. É aceitar que a dor que é inerente à vida e vivê-la a partir dessa compreensão. Isto é que pode criar algumas condições para a felicidade.

 

Referências

Gallardo, L. (2021). Why Understanding and Embracing Suffering is Important, NOW. Site pesquisado em março de 2021: https://worldhappiness.foundation/store/ebooks/why-understanding-and-embracing-suffering-is-important-now/

Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2011). Acceptance and commitment therapy (2nd ed.). New York: Guilford.

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Sobre o Autor
Mara Lins
CRP 07/05966 Psicóloga. Doutora em Psicologia Clínica (UNISINOS). Mestre em Psicologia Social (PUCRS). Especialista em Terapia de Casal e Família (CEFI). Treinamento em Terapias Comportamentais Contextuais. Treinamento em Terapia Comportamental Integrativa de Casal (Integrative Behavioral Couple Therapy-IBCT) com Andrew Christensen e sua equipe. Professora e Supervisora de cursos de pós-grad... ver mais

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