A vida (entre) posts – reflexões sobre as mídias sociais

Nesse texto gostaria de abordar nossa relação com as mídias sociais. Não são fórmulas, nem verdades absolutas, longe disso! Trago pontos de reflexão que tenho me indagado sobre a forma como as mídias sociais podem impactar nossa vida e algumas ideias do que podemos fazer em relação a isso. Quero tentar exercitar aqui uma olhar dialético, que compreende que opostos não são excludentes e que observar vários lados de um mesmo fenômeno pode ampliar nossa consciência, diversificar perspectivas e nos trazer maior liberdade de escolha.

Vi uma charge um tempo atrás que brincava com a ideia de usar a lógica das redes sociais para fazer amigos na vida real. Uma pessoa falava para a outra: me chamo fulano, eu sei cozinhar isso, vou para praia com frequência, gosto de tirar fotos dos meus animais de estimação, você já está me curtindo? Me diverti com esse olhar perspicaz, e ainda que seja um recorte simplista, achei válido considerar essa interlocução entre vida real x vida digital – ou melhor, será que ainda conseguimos separar esses dois mundos? Costumo até brincar que para muitas pessoas o primeiro movimento para se alimentar consiste em tirar uma foto antes.

E qual o problema nisso? Nenhum! Ou todos! O ato de usar as redes sociais em si não é o problema, de forma alguma. Meu convite está em pensarmos no pra quê desse uso, em qual(is) função(funções) as redes sociais desempenham em nossa vida. Podem ter a função de investimento profissional – já faz tempo que o Instagram, por exemplo, tornou-se uma ferramenta digital essencial para inúmeros serviços. Podem nos aproximar de pessoas, nos ajudar a manter contato, achar pessoas. Podem divertir, distrair, celebrar momentos, ensinar muitas habilidades que vão desde organizar o seu guarda roupa até aprender sobre inteligência artificial. Podem também estar a serviço de lidar com sensações ou coisas que não quero me conectar. Nesse contexto, as redes sociais são um prato cheio para a procrastinação, muito efetivas no curto prazo, mas deixam a desejar quando precisamos colocar algo em prática. Podem servir para passar o tempo, para lidar com a vergonha ou a ansiedade, para saber exatamente quais os passos ou os movimentos de alguém…Observar essas funções, a frequência e em que contextos estamos utilizando as redes sociais pode ser um bom exercício para identificar se estamos sendo coerentes com o que realmente desejamos delas.

O tempo despendido nesses aplicativos também é um fator relevante. Reclamamos que não temos tempo para muitas coisas no dia-a-dia, mas a vida moderna incorporou “horas de redes” em nossas rotinas de um jeito tão automático que nem percebemos o que pode ficar de fora…Acredito que por inúmeros motivos esse é um caminho sem volta, então cabe a cada um escolher a forma de se relacionar com tudo isso. A tomada de consciência me parece um dos primeiros passos – Quanto tempo estou dedicando para ficar nas redes? Nesse tempo, o que estou de fato fazendo? Uma estratégia que pode ser bem-vinda e que o próprio celular nos proporciona é o automonitoramento, ficando a critério de cada um perceber e dosar o tempo que julga adequado. Às vezes, optar por ficar offline das redes por algum período de tempo ou atividade importante pode ser também extremamente útil e necessário.

Ao mesmo tempo, ainda que as mídias tenham a tentativa de compartilhar nossa realidade, são também grandes vitrines expositivas, principalmente dos momentos positivos. Obviamente, sabemos que quem posta também sofre, também tem seus dias ruins, também fazem coisas que não querem expor. Ainda assim, somos seres que interpretam, julgam, analisam sobre a realidade que está dada. É fácil ver a foto de alguém viajando e pensar em frações de segundo que a pessoa está bem, feliz, não tem problemas, que está melhor do que nós e sentir tristeza, raiva ou achar que a sua forma de levar a vida não está dando certo. Justamente nos dias em que estamos mais vulneráveis ou quando algo que gostaríamos deu errado, olhar para as redes pode ser um grande gatilho para disparar um senso muito grande de isolamento e inadequação.

De fato, uma das grandes consequências que essa exposição toda pode suscitar é o ato de comparar-se. Em especial, tenho estudado o impacto que a comparação em relação a aparência física pode ter para as pessoas. As idealizações, a busca por um corpo que não é sequer compatível com o que se tem, a descontextualização da realidade alheia, são grandes receitas de frustração constante. A literatura nos traz dados de que as comparações desfavoráveis (quando achamos que o outro está acima/ melhor do que nós) estão associadas a maior insatisfação com a imagem corporal, maior risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares, maior sensação de isolamento e desconexão da sociedade como um todo. 

Por isso, trazer atenção para a forma como encaramos o que vemos e postamos é necessário! Podemos notar nossos julgamentos,  lembrar que as mídias são apenas um recorte ínfimo da realidade (e que por vezes nem correspondem de fato a realidade), atentar para o sentido que cada um dá para as mídias é diferente. Eu escuto às vezes: “ele/a está afim de mim, curte todas as minhas fotos”. Será mesmo? Até que ponto podemos inferir como o outro se sente com base em um gesto?  Tenho também recentemente me questionado sobre as imagens que aparecem no meu feed. Quais delas me divertem, me fazem crescer, me interessam de fato ou me trazem alguma coisa de produtivo? Quais delas funcionam mais para rebaixar meu humor, aumentar minha auto crítica e os julgamentos? O unfollow terapêutico, estratégia na qual eu deixo de seguir pessoas que me fazem sentir constantemente mal/frustrada/pra baixo, tem sido divulgado como uma possibilidade frente a tantos estímulos potentes.

E de fato é bem fácil ser absorvido com os inúmeros conteúdos e as infinitas possibilidades existentes nesse arco íris nem sempre colorido das mídias. E como é bom, por vezes, se perder no tempo, olhar para posts interessantes, ficar à toa. Ao mesmo tempo, esse bombardeio de estímulos pode afetar a nossa capacidade de viver o momento integralmente. Parece como uma  tentativa de que um corpo possa ocupar dois lugares ao mesmo tempo, mas a verdade é que não ficamos inteiros em nenhum lugar, reféns de uma sensação de urgência muitas vezes desnecessária. Compartilhar nossa atenção fazendo duas coisas ao mesmo tempo pode dar a sensação de produtividade, de “não perder nada”, mas com certeza perde-se em qualidade de presença e em efetividade do que quer que estejamos fazendo. As relações podem ser as mais atingidas por essa perda. Já parou para reparar qual é a sensação de falar com alguém que não sai do celular? E afinal de contas, quando é hora de curtir o momento, se entregar a ele, e simplesmente esquecer do celular?

 

Por fim, quero falar um pouco mais das relações. As redes sociais também podem ser formas de demonstrar afeto e carinho pelo outro. Uma postagem que celebra uma reunião, uma mensagem que incentiva e acolhe. Um casal que posta pela primeira vez uma foto sua (e marca o outro). Uma oficialização de relação pelo facebook. Cada um vai dar o grau de importância que quiser para cada um desses eventos. Ainda assim, o que fica de fora se nos restringimos aos movimentos virtuais? Como eu de fato me sinto com determinada pessoa no convívio pessoal? Como eu demonstro meu afeto pessoalmente? 

Inúmeros aspectos das relações são apenas permitidos pelo contato olho-no-olho, no qual experimentamos os prazeres e as dificuldades inerentes aos relacionamentos. Estava esses dias fazendo um stories com uma amiga. Era para ser um boomerang de um brinde (com copos vazios, mas isso não importava porque estávamos de fato brindando nossa amizade, nossos planos futuros). Ela me ensinou uma tática para o stories sair direito. Fiquei focada em tentar acertar o movimento. Ao tentarmos olhar para a câmera, nos perdemos. Na imagem, minha cabeça ficou cortada pela metade.  Ela, que segurava o celular, parecia querer jogar o líquido inexistente em mim, enquanto eu parecia uma autômato. Ao olharmos o resultado, risadas foram inevitáveis, de doer a barriga. E ali, naquele momento, estávamos vivas, realmente conectadas, algo que um post jamais traduziria integralmente.

Por fim, como esse universo virtual é imenso e os impactos ainda estão sendo muito pesquisados, fica aqui o link de duas pesquisas on-line superbacanas que abordam os seguinte temas:

Pesquisa sobre relacionamento e redes sociais:  tinyurl.com/pesqsnsra

Pesquisa sobre comportamento de adultos em ambiente virtual, com foco na conexão social: https://pt.surveymonkey.com/r/W22NNMW

 Por hoje é só. E como nossa vida real não é como o Facebook e Instagram, NÃO PRECISAMOS CURTIR TUDO, nem mesmo esse escrito, e podemos sim manter uma postura atenta e reflexiva sobre o que de fato nos importa e interessa. 

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Sobre o Autor
Gabriela Damasceno
Gabriela Damasceno
CRP 07/19660 Psicóloga graduada pela UFRGS. Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental pelo instituto WP e especialista em Terapia de Casal e Família pelo CEFI. Formada pela primeira turma do curso de Especialização em Terapias Comportamentais Contextuais pelo CEFI/CIPCO, com formação complementar em Terapia Comportamental Dialética (DBT). Tem experiência clínica no atendimento individ... ver mais

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