A Pressa Pela Mudança

Por que muitas vezes é tão difícil reconhecermos a mudança em nós? Queremos mudar, mas não queremos esperar o tempo necessário para que ela aconteça, e quando acontece, muitas vezes não conseguimos discriminá-la.

Me peguei refletindo sobre isso depois de uma conversa com um amigo. Ele estava passando por dificuldades no relacionamento: contou que sente ciúmes, algo que considera altamente recriminável. Quer mudar, mas quer que isso aconteça rápido, de forma abrupta, como se quisesse alcançar o ciúme dentro de si e tirá-lo com as mãos.

Essa é uma sensação familiar para mim, e acredito que para você, leitor, também o seja. Se não com o ciúme, com alguma outra dificuldade ou característica que gostaria de mudar. Esquecemos, porém, que a mudança acontece aos poucos, diariamente, um pequeno passo de cada vez. Não é possível apressá-la.

Cada mutação tem o seu processo, e com isso, o seu tempo. De todo modo, ela acontece: “nada é fixo, nem nada é permanente”. Essa frase vem do Zen Budismo, e nos lembra da impermanência das coisas. Somos inconstantes, mutáveis. Mesmo assim, temos pressa para que esse processo ocorra de forma instantânea.

Também dificuldade em reconhecer que mudamos. Criamos rótulos, assim como as pessoas ao nosso redor criam rótulos para nós também – “ela é tímida”, “sou extrovertido”, “ele é preguiçoso”. Mas, se somos tão impermanentes, esses rótulos também não deveriam durar tanto tempo. Acredito que faça mais sentido, para muitas coisas, nos referirmos a “estar”, ao invés de “ser”.

Qual a alternativa, então, para essa pressa pela transformação? Cultivar uma atenção plena nos ajuda a entender a vida e a nós mesmos neste exato momento. Atentos ao que acontece conosco e com o ambiente, nos apropriamos da realidade. Através desse entendimento, podemos então nos conectarmos com a Aceitação Radical: aceitando a realidade como ela é, conseguimos afastar o ímpeto de controlarmos aquilo que não podemos, tomando consciência do que é possível mudar e do que não é.

Uma vez que entendemos o que é passível de mudança neste momento, podemos buscar a ação comprometida, nos orientando para os nossos objetivos. Deste modo, podemos aceitar o que não controlamos, ao mesmo tempo que nos comprometemos a mudar o que é possível, dentro das condições que temos agora.

Convido você, caro leitor, a reconhecer os passos que deu até então. Pense no aspecto que gostaria de mudar mais profundamente: que avanços foram possíveis até aqui? Mesmo os menores aspectos são importantes de serem lembrados neste momento. Há uma grande probabilidade de você estar refletindo sobre detalhes que não havia considerado antes. Lembre-se: o caminho se faz através de pequenos passos em direção ao horizonte.

Sejamos mais compreensivos com nossos processos, aceitemos a nossa realidade e as nossas dificuldades. Que consigamos nos comprometer com nossos objetivos, sem passar por cima dos nossos processos. Não é fácil como este texto pode fazer parecer, mas é o caminho mais gentil para com nós mesmos. A metamorfose vem, mas não sem paciência.

 

Este texto é de autoria da estagiária da equipe CEFI Contextus – Marina de Almeida Nery

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Sobre o Autor
Mariana Sanseverino Dillenburg
Mariana Sanseverino Dillenburg - CRP 07/27708 Psicóloga graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestranda no Grupo de Pesquisa Avaliação e Atendimento em Psicoterapia Cognitiva Comportamental (GAAPCC) coordenado pela professora Margareth da Silva Oliveira na PUCRS. Especialização em andamento em Terapias Comportamentais Contextuais pelo CEFI/CIPCO. P... ver mais

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