A moda é não fazer dieta

Letícia Christianetti – Contexto Saúde

Já passamos pela dieta do ovo, da sopa, do suco de abacaxi. Já abominamos o leite, a farinha de trigo, o pão, a massa e os carboidratos. Já enfatizamos que os vegetais devem ser consumidos “sempre” crus, pois são mais nutritivos. O ovo já foi vilão, assim como o hambúrguer é vilão. Falamos sobre corantes, sobre o glutamato monossódico, sobre compostos químicos e suas implicações fisiológicas. E até o presente momento tenho a sensação de que como profissional da nutrição, o que eu mais aprendi, foi julgar o que seria certo ou errado dentro do contexto alimentar. Houve tempos em que o termo dieta me fazia um sentido enorme e somente quando eu conseguia seguir uma dieta, eu me sentia uma mulher de sucesso. De fato nos momentos que consegui seguir uma dieta restritiva sempre alcançava o principal objetivo daquele momento: ser magra. Mas com o passar do tempo e com a experiência profissional, me dei conta que nem eu mesmo conseguia cumprir o que prescrevia em um plano alimentar por muito tempo. O fato é que não me dava conta de que existia muitos outros valores envolvidos com o meu contexto alimentar. Me sentia desconfortável quando ia à uma festa e não podia comer o quê a festa ofertava (um bom doce, ou um bom prato). Às vezes o desconforto tinha uma boa função: trazia-me uma sensação de empoderamento e autocontrole; em outros momentos o desconforto me trazia uma sensação de rigidez e foi em um momento de extrema rigidez que me dei conta do quanto a restrição naquele momento não estava de acordo com os meus valores pessoais. Me dei conta de que a restrição alimentar que realizava era algo pontual, único e exclusivamente para conseguir emagrecer. E me via, em um curto prazo de tempo, me permitindo (como se fosse proibido) comer alimentos mais gordurosos, ou doces, por exemplo. Vi minha vida social restrita na medida em que eu só poderia comer aqueles alimentos que eu achava extremamente importante para o processo de emagrecimento naquele momento, e me percebia, em um curto prazo de tempo, retomando ferozmente aos velhos hábitos alimentares “errados”. Notei que valores importantes como flexibilidade, socialização e saúde eram vistos em segundo plano e me dei conta de que não era mais assim que eu gostaria de me motivar para mudança do comportamento alimentar. Era uma falsa motivação. Mas em tempo, estamos quase pulando para o outro lado da moeda, onde o termo dieta também é abominado. Eu vi um “meme” do ovo estes dias que explica um pouco do que sinto:

 

Sabemos que o nosso glúten sofreu alterações genéticas importantes ao longo do tempo, e de fato, tem trazido uma série de sintomas adversos no processo digestivo. Mas me faço esta pergunta diariamente: será que o caminho é abominá-lo?

Hoje a moda é não fazer dieta e sinto medo quando percebo que a apologia ao “não cuidado alimentar” se sobrepõe a valores importantes como saúde, bem-estar e qualidade de vida. É incontestável que uma alimentação saudável e a prática de exercícios físicos regulares é de extrema importância para que possamos ter longevidade. Não longevidade a qualquer preço, longevidade com bem-estar. Longevidade com qualidade de vida, longevidade com disposição, longevidade com saúde. Sinto medo quando o termo dieta é abominado tanto quanto o glúten (e veja bem, isto não os faz nem melhor, nem pior e menos ainda, comparativo). Na verdade o termo dieta tem um significado simples: cota habitual de alimentos sólidos e líquidos que uma pessoa ingere por dia. Logo não penso que o caminho seja abominar mais alguma coisa: e aqui neste texto, me refiro ao termo “dieta”. Dieta nada mais é do que aquilo que a gente ingere no nosso dia-a-dia, da maneira que a gente consegue, como a gente se propõe com as possibilidades que a gente tem, dentro do contexto que a gente está inserido, com as pessoas que a gente está, com os pensamentos que a gente tem, com as emoções que a gente sente, com as sensações que a gente percebe no corpo( aqui cabe a fome) e com a necessidade fisiológica que a gente tem.

Portanto queridos, na tentativa de abominar o termo “dieta”, voltemos ao contexto. Sinto ser mais útil e me faz muito sentido levar para o mundo valores profissionais que carrego comigo: saúde, flexibilidade, amor, socialização e compaixão. Que possamos parar de julgar e ser mais descritivos sobre a realidade que nos cerca, atendendo às necessidades sociais e se abstendo do bom e velho ego na prática do “certo ou errado”.

Sobre o Autor
Gabriela Damasceno
Gabriela Damasceno
CRP 07/19660 Psicóloga graduada pela UFRGS. Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental pelo instituto WP e especialista em Terapia de Casal e Família pelo CEFI. Formada pela primeira turma do curso de Especialização em Terapias Contextuais de Terceira Geração CEFI/CIPCO, com ênfase na Terapia de Aceitação e Compromisso e na Terapia Analítico-Funcional. Tem experiência clínica no atendi... ver mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *