Enquanto pensava sobre o que escrever para este weblog hoje, fiz, por brincadeira, um pedido à uma “inteligência artificial” – que me escrevesse um soneto em rima rica baseado na terapia de aceitação e compromisso.
Aqui vai:
Ó coração que busca a paz serena,
Na dor que insiste, na alma que padece,
Não fujas mais da mágoa que te enobrece,
Aceita o espinho que a vida te acena.
Deixa o controle, a luta que envenena,
E o pensamento que à mente te tece,
Pois na quietude o teu ser floresce,
E a liberdade, enfim, tu a acena.
Compromete-te ao que o valor te aponta,
Não no sentir, mas no agir que é teu,
Traçando o rumo que a alma te afronta.
Pois cada passo, na senda que esvoa,
É mais que a dor, é o caminho de um eu
Que, mesmo em lágrimas, se encontra e voa.
Dá pra dizer que é uma porcaria sem fim? Eu não poderia dizer isso. É exatamente o que foi solicitado, e os elementos sobre valores, sobre agir, sobre não fugir da dor, sobre aceitação… existe uma aparência, mesmo, de estar ali. Agora, se eu fosse escrever isso eu mesmo, acho que sairia uma porcaria. Certamente demoraria muito mais.
A terapia de aceitação e compromisso, porém, não é uma aparência de competência. É uma percepção de mundo que, como a poesia parece querer dizer – ainda que não diga nada, porque não tem voz, visto que não foi escrita por ninguém -, apoia-se na beleza da feiura. Em sentar-se frente a uma paisagem nublada, com chuviscos, na frente de uma pixação em um muro e ali conseguir encontrar algo de valioso – uma tentativa de expressão de alguém que não sabe como, que pode ter valores distintos dos meus, e talvez até ainda pouco amadurecidos, mas que quis por sua marca no mundo. Uma garoa trazendo um ambiente propício para que o fungo, essa forma de vida absurda, gigantesca, fundamental, mas muitas vezes oculta, exponha seu órgão reprodutor de maneira majestosa, e viver, e trazer vida. Decompor aquilo que morreu em forma de vida.
Não se trata de ter uma dimensão de beleza superficial. Mas ver uma beleza mais profunda por trás de uma feiura, que tem uma intenção de vida, de conexão. Essa intenção são os valores. A ação é comprometida, talvez pela própria natureza. E isso não acontece nem no passado nem no futuro. Acontece agora. No espaço infinitamente pequeno – e, ainda assim, infinito – do presente momento, não há espaço para fusão – nem desfusão.
Apenas para a ação.
Na verdade, sempre é assim. A conduta sempre é comprometida, mas às vezes é comprometida não com aquilo que é importante, e sim com a aparência de beleza. Mas essa aparência é tão superficial que não tem nem uma feiura por trás. Tem uma inexistência. Não tem.
Aceitação não é nada mais que apenas a realidade. Não há nada do que se desfusionar quando essa “diagonal” entre aceitação e conduta comprometida finalmente se unem. Como se diz no Zen – “a ação iluminada é como arrumar o travesseiro enquanto se dorme”. É tão natural que não necessita deliberação.
Mas é possível ver, e ver é ser uma outra forma de ser. Uma forma de ser que não está presa no tempo, que existe apenas na ação valorada no momento presente e aceito, e esse não tem espaço ou tempo suficiente para rótulos, julgamentos e outras ilusões. É além até mesmo de perceber-se fazendo. É o espaço que permite que essa ação perfeitamente imperfeita ocorra.
Encerro esse texto que, prometo, foi escrito com sobriedade, mas muita abertura, sem rimas ricas mas com presença no momento e confiança que essa verdade contextualmente funcional está sempre disponível como uma sabedoria que transcende algum tipo de eu e de não eu, ainda que, talvez, não vá, nem precise, ser perfeitamente entendida. Apenas gerar inquietação já pode bastar.
Não preciso de inteligência artificial, minha burrice perfeitamente natural me basta.