Terapia para diminuir a solidão

Terapia serve pra aumentar o autocontrole, certo? Normalmente, quando pensamos em uma pessoa que precisa de ajuda psicológica, temos em mente alguém que é excessivamente guiado pelas emoções. Nesse caso, provavelmente essa pessoa tem dificuldade de tomar decisões racionais e resolver seus problemas. A terapia e os medicamentos a ajudarão a reduzir o impacto negativo das emoções, a alinhar seus objetivos e até a amadurecer psicologicamente.

Mas e se a dificuldade não for essa? Pense em alguém que não consegue expressar as emoções que sente, ou que não consegue se aproximar emocionalmente dos outros. Geralmente, esconder as emoções – ou ser capaz de “engolir o choro” -, perseverar, cumprir os objetivos a qualquer custo, são características valorizadas em nossa sociedade. Valorizamos o colega que entrega a tarefa antes da hora, se oferece para fazer o trabalho dos outros e não fala dos seus problemas. Ninguém gosta de quem é “folgado”, certo?

Nem sempre. Pense naquela pessoa que quando participa de atividades, não está preocupado em ser o melhor e ganhar, mas se diverte só de estar participando. Chamamos isso de Mente Aberta. “Mente Aberta” pode ser um palavrão para algumas pessoas: “Essa pessoa se diverte pra se aproveitar da minha boa vontade!”, “Se eu baixar minha guarda, ela vai me explorar mais ainda!” Observe suas reações enquanto lê isso, e veja se isso se aplica a alguma relação da sua vida.

Algumas pessoas – tanto por herança genética quanto por aprendizagem – tem maior aversão a risco. Isso aumenta a nossa propensão a sentir medo ou ansiedade, o que pode ser uma coisa boa: precisamos de pessoas que se preocupem com o futuro e ajudem a preparar para riscos que ainda não aconteceram. É como conta a fábula da cigarra e da formiga. O que a fábula também conta é que – salvas as diferenças de instintos – enquanto a formiga está preocupada em se preparar para o futuro, a cigarra está participando da vida em sociedade: interagindo e se interessando pelo bem-estar imediato dos outros, dançando, cantando, jogando conversa fora.

 

A formiga, por se dedicar tanto à preparação para o futuro, chegou ao inverno e sentiu que “não fez mais que a obrigação”. Sua sensibilidade ao risco não permitiu que ela apreciasse ou festejasse os resultados do seu trabalho. Está preocupada com a próxima estação, mas no fundo ela gostaria de poder sentar e descansar, como a cigarra faz.

Em casos em que há comportamentos perigosos guiados pela impulsividade, a terapia deve ser um lugar para aumentar o autocontrole. Mas se os comportamentos perigosos forem guiados por excesso de autocontrole – como o isolamento social ou o trabalho em excesso – pode ser um lugar para aprender a sentar e descansar. Para poder revisar todo o bem que já foi feito, e o quanto podemos estar negligenciando nossas necessidades de afiliação – ou seja, de estar intimamente ligado a quem é importante para nós. Afinal, evoluímos para participar de tribos e, se já fizemos o bastante, podemos sentar à fogueira e compartilhar a vida com os nossos companheiros, colegas e entes queridos.

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Sobre o Autor
Giovani Gatto
Giovani Gatto
Giovani é psicólogo especialista, trabalha como terapeuta e supervisor no núcleo Contextus do CEFI. Tem experiência nas Terapias Comportamentais Contextuais no contexto individual, grupos, casais e em Políticas Públicas. Publica semanalmente o Journal Club sobre Ciência Comportamental Contextual no Youtube. ver mais

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