Mindfulness, para quê?

Nos últimos anos, a onda do mindfulness, ou atenção plena,  cresceu bastante em nosso país. Livros de autoajuda, aplicativos de meditação, matérias em jornais, vídeos, blogs e revistas, fazem o mindfulness ser cada vez mais popular e conhecido. É ótimo que algo que tem potencial de fazer bem às pessoas possa se espalhar com facilidade, mas como tudo na vida, o “boom” do mindfulness tem também seus riscos, especialmente quando se deposita nele a expectativa de ser o caminho da cura e salvação. 

Mas afinal, o que é mindfulness? 

São muitas as definições de mindfulness, e gosto da ideia de que mindfulness é um estado de atenção no qual temos a intenção de fazer contato com a nossa experiência do momento presente, adotando uma postura de gentileza e abertura para perceber e sentir o que aparece no campo de atenção (no nosso corpo, mente e percepções sensoriais).

Talvez você não compreenda, a partir dessa definição, o que de bom esse tipo de atenção pode trazer para sua vida. Especialmente se pensar que nem sempre queremos perceber o que está se passando ao nosso redor, ou até mesmo dentro de nós. Notar um desconforto físico, lembrar de uma situação constrangedora, pensar no que está pendente ou em algo que lhe tirou do sério…não queremos isso, e isso é natural. Queremos estar bem, nos sentir bem, mesmo que para isso, finjamos que nada disso existe. E no mindfulness, se dá luz a tudo isso, pois não controlamos (por mais que a gente queira) o que surge em nossa mente e corpo. Contraditório, não? Se é para fazer bem, porque se conectar com o desconforto? 

Talvez você já tenha percebido que empurrar a sujeira para debaixo do tapete funciona para manter um ambiente aparentemente limpo, mas o ar permanece tomado de pó, e a sujeira permanece lá, ocupando espaço e fazendo relevo. O mesmo ocorre conosco, com as nossas dificuldades, dores e preocupações, que aliviam quando nos distraímos ou fugimos delas, mas logo ressurgem. Sim, especialmente se estamos nos referindo a dores emocionais e pensamentos difíceis.

E o que o mindfulness tem a ver com isso?   

Como estava falando anteriormente, perceber o que ocorre no momento presente de forma intencional e gentil, nos ajuda a ver com mais clareza o que está acontecendo, o que, quando estamos em um modo automático, não somos capazes de perceber. São tantos os movimentos, ações e pensamentos que fazemos de forma automática, que até nossas formas de escapar da dor são automáticas. E por não perceber o que estamos fazendo, como estamos fazendo e a que estamos reagindo, acabamos acumulando a sujeira no tapete mesmo quando queremos uma sala limpinha. 

O mindfulness, esse estado de atenção, pode ser desenvolvido através de práticas e exercícios que treinam a nossa atenção a estabelecer um foco e voltar para ele quando há uma distração. Este é um esforço repetitivo, que nos habilita a sermos mais conhecedores do que está se passando conosco momento a momento. Perceber o que está acontecendo não muda nada, mas é o primeiro passo para que possamos mudar algo, ou escolher seguir o que o piloto automático sugere. Porém, semelhante aos demais processos de aprendizagem, o treino de atenção ocorre com mais facilidade quando estamos seguros, com nossas necessidades básicas atendidas, sem urgências a serem resolvidas e vendo algum sentido no que se está fazendo. 

Se você tem interesse em praticar ou conhecer mais, recomendo que procure um grupo de treinamento em sua cidade ou online. Muitos profissionais qualificados e certificados podem lhe auxiliar. E caso você pratique em casa, sozinho, compartilho algumas experiências que fazem parte desse processo.

Se você, ao praticar exercícios de mindfulness, se percebe distraído, pensando em tudo menos no seu corpo e na sua respiração, e de vez em quando tem a sensação de ter sentido o ar tocar suas narinas, é isso mesmo, esta foi a sua prática.

Se você, quando pausa para fazer uma prática de mindfulness, relaxa e pega no sono, tudo bem. Esta foi a sua prática. Notar o cansaço e se entregar a ele às vezes é necessário. 

Se você, ao finalizar sua prática, teve a sensação de que o tempo passou voando e poderia ficar muito mais tempo na mesma posição, pois não estava pensando em nada, esta foi a sua prática. E experimente notar o que sente no corpo quando não pensa em nada. 

Se você, ao se colocar em uma postura ereta com os pés e braços repousados e descruzados, ficou agitado, percebendo a impossibilidade de ficar parado, tudo certo, esta foi a sua prática. 

Se você tem praticado com certa frequência e segue se irritando, ficando triste, tendo problemas e dores, é isso aí. Talvez você até está percebendo isso com mais frequência. Pois lembra, mindfulness não é a cura nem a sua salvação. É um meio e não o fim. 

  

Sobre o Autor
Maria Eduarda D. de Alencastro
Maria Eduarda D. de Alencastro
CRP 07/21833 Psicóloga graduada pela PUC-RS, especialista em Terapia Sistêmica e em Terapias Comportamentais Contextuais pelo CEFI, tendo realizado formação complementar em Terapia Comportamental Dialética (DBT). Participou de treinamento intensivo em Terapias Contextuais realizado no CIPCO em Córdoba, Argentina. É membro da equipe de DBT do CEFI Contextus e coordena grupo de Treinamento de ... ver mais

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