Faz sentido

Certas pessoas têm dificuldade em iniciar uma conduta nova. Deixam para depois, vão fazer outra coisa, e tentam retornar para a ação em concreto que desejavam fazer. Pode ser que você tenha pensado na procrastinação neste momento. Sobre um olhar da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), a procrastinação é uma evitação experiencial (EE). Ou seja, eu não tomo contato com a dificuldade de iniciar a conduta nova, a isso atribuimos a EE, e vou fazer outra coisa que seja mais apetitosa ou menos punitiva para me livrar desta sensação difícil. 

Conforme já foi apresentado em diversos estudos de ACT, a evitação experiencial está presente em diversos transtornos apontados pelo DSM, o manual de transtornos psicológicos. A EE em si não é um problema. Pensamos num outro exemplo onde a evitação está presente. Uma pessoa pode não querer ir a uma festa, onde sabe que vai encontrar o(a) sua ex, o que gera uma sensação de mal estar. É compreensível atuar desta maneira. No entanto, quando passamos a atuar sobre o controle da sensação que nos gera desconforto, acabamos por nos distanciar da vida que queremos para nós. Se olharmos para esta pessoa novamente, ela não apenas deixou de ir à festas, como também a outras lugares que um dia geraram brilhos no seus olhos, por medo de sentir o mal estar. Ficar em casa agora é mais confortável, não faz entrar em contato com situações que podem gerar um maior mal estar. No entanto, sua vida vai perdendo cor. Viver já não faz mais sentido. 

Se você é de Porto Alegre (falo desta cidade porque a conheço, mas pode ser que isso seja algo presente em outras neste Brazil), já deve ter reparado na grande quantidade de farmácias que existe nesta cidade. Fecha livraria, abre farmácia. Fecha loja, abre farmácia. Fecha bar, abre farmácia. Fecha academia, abre petshop. Enfim, estamos doente. Nós e nossos bichinhos*. Nosso amigo de acima, que fica em casa, tem uma doença. Precisa ir num médico, precisa de um remédio que o tire desta situação. É assim que aprendemos. Tenho dor de cabeça, tomo remédio. Funciona. Não sou contra remédios, eu sou adepto a anti-alérgicos. Se meu nariz está entupido, eu vou lá e compro Nasoclean e Nasonex (merchandising). Eu respiro agora. Eu vejo o mundo. No entanto, um remédio dirigido a situações psicológicas, não vai ensinar uma habilidade. Talvez nosso amigo precise de um acompanhamento psicológico, você pode estar pensando. Ou talvez ele não precise**. 

É um pouco inevitável, você irá passar por algum momento conturbado na vida. Você conhecerá o sofrimento, não gostará de experiencia-lo, irá evitá-lo e passará a querer a viver como você era antes. Nossa mente faz isso com a mesma naturalidade que você quando criança recebeu um presente no natal e olha para o presente do outro pensando se o seu é melhor ou não. De uma maneira ou de outra, quando um cliente chega à terapia, uma de suas maiores dificuldades está relacionada à motivação ou a encontrar algum sentido para a vida. A pessoa é capaz de perceber a discrepância entre como as coisas estão acontecendo atualmente e como as coisas foram na sua vida. Ela sabe que precisa mudar e, em muitos casos, isso é óbvio para ela (por exemplo, voltar a sair de casa ou eliminar alguma adição). Mas em outros casos, as pessoas buscam alguma mudança ou que os outros mudem sem estar conectado com as próprias ações no momento presente. 

A ACT entende que tal acontecimento é um movimento natural no ser humano, desde que somos seres que possuímos linguagem. Passamos a nos relacionar mais com nossos eventos internos de mal estar, os evitando, à ir em busca do que realmente nos importa. A terapia de aceitação e compromisso traz os valores pessoais como uma bússola para a vida que nos faz sentido. Valores são qualidades de ações (por exemplo, com amor, compaixão, aprendizagem, proteção…) que cada pessoa pode identificar quando está atuando. Vai além das consequências de uma ação, ou seja, eu faço porque estou conectado com o que é importante para mim, mais além do resultado em si. Por exemplo, para mim é importante a saúde. Muitas vezes estou cansado e vou na academia ao final do dia. Ainda que eu não tenha tido o desempenho desejado no exercício, serei capaz de identificar que coisas eram importantes para mim em fazer exercício.

Por fim, também é importante para mim que o leitor do texto experiencie, mais do que saiba explicar o que é um valor e a razão dele ser importante. Quando chegar ao fim do texto, pense no que você achou do texto e pense no que era importante para você em ler este texto. Note o que você sente quando pensa no que você achou do texto (tome contato por poucos segundos com esta sensação). Note o que você sente quando pensa no que era importante para você em ler este texto (…). São iguais as duas sensações? Agora escolha, qual das delas você escolhe para ser o seu guia?

 

* Petshop não é veterinária, são diferentes. Trouxe petshop mais num sentido humorístico, mas explicar isso não tem a menos graça. No entanto, animais em ambientes criados por humanos costumam ter doenças que em ambientes naturais não possuem. Sei que isso é debate dentro da biologia, pois também existem benefícios em manter animais em ambientes fechados. Mas isso é assunto para outro texto.

** Gostaria de conhecer um estudo de pessoas que passaram por um quadro difícil na vida e saíram dele sem ajuda psicológica, deduzo que seja a maioria (mas isso também é assunto para outro texto). 

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Sobre o Autor
Matheus Bebber
Matheus Bebber
Psicólogo graduado pela PUC-RS. Master em Investigação em Ciência do Comportamento pela Univisidade de Almería, Espanha. Formação em Psicoterapia Comportamentais Contextuais pelo CEFI-RS/CIPCO, com formação complementar em Terapia Comportamental Dialética (DBT). Experiência em atendimento de grupo de treinamento de habilidades da Terapia Comportamental Dialética. Participou de treinamento inten... ver mais

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