Consequências de viver em um ambiente invalidante

No trabalho como psicoterapeuta tenho a possibilidade de escutar as histórias de vida de meus pacientes. Eu sinto muita gratidão de conhecer com profundidade o que está acontecendo com eles, e perceber as variáveis que estão dificultando que consigam ter a vida que eles gostariam de ter neste momento.

É um espaço no qual eu posso conhecer suas trajetórias de vida e entender o que aconteceu, gerando maior amplitude para mim e para eles ao notar que isto não surgiu da nada. A constante principal nessas histórias é o ambiente onde eles cresceram, aprenderam sobre a vida e a se relacionar com os outros. Gostaria compartilhar o que muitos deles relatam em relação a esses primeiros anos de vida…

“Eu me sentia motivo de piada, a maioria das vezes eu estava com vergonha de mim”.

Tentem imaginar essa situação, ou para outros, vamos lembrar dessa etapa na qual estávamos conhecendo o mundo, aprendendo a nos relacionar e expressar nossas próprias emoções, ideias. Estamos aí e o ambiente reage invalidando o que sentimos, o que pensamos, nosso contexto não consegue fornecer as condições necessárias para que possamos desenvolver a segurança e conhecimento sobre nosso mundo, sobre nós mesmos.

O resultado é a sensação de inadequação, de que algo está errado com a gente, esse contexto invalidante fala isso constantemente, a cada vez que tem oportunidade, então…

Como questionar o que eles falam, o que eles expressam sobre nós?

Como questionar a forma de fazer as coisas, quando eles são os que nos cuidam?

“Parece que eles são os especialistas neste mundo… então deve ser verdade! algo está errado comigo.”

Essa invalidação pode se apresentar de diferentes formas, explicitamente com comentários de desaprovação, cobranças, violência física ou psicológica, ou de forma implícita, não respondendo às necessidades, ignorando, não reagindo, ou limitando o espaço para se expressar.

É uma experiência difícil porque nessa primeira etapa de nossas vidas, estamos conhecendo o mundo e como viver e direta ou indiretamente este entorno nos ensina como precisamos nos relacionar com os outros e com nós mesmos.

Tenho que me proteger, tenho que sobreviver, algo em meu interior está errado”.

“Eles falaram isso”.

“Eles são os que sabem disto”.

“Meus pais falam isso”.

“Meus professores falam isso”.

O psicólogo e o psiquiatra já falaram isso também. Eu não tenho elementos para questionar, parece que eles sabem, seria o esperado eles falarem isso se algo não está bem, fariam aquilo para me cuidar… porque é o melhor para mim. É difícil porque eles dizem que <<é a coisa certa>>, mas eles não fazem da mesma forma, então provavelmente essa regra se aplica somente para mim.

Que complicado, é como se sentir um “extraterrestre” em um mundo que não observa o que precisa… escutar <<eu te amo>>, mas não sentir, não ver em suas reações o que eles dizem… <<eu te amo>>, mas você tem que parar de ser assim. Parece que é mais <<eu te tolero, às vezes>>.

E aprendemos a lidar com esse ambiente, com as ferramentas que temos ao nosso alcance, mas parece que nossas estratégias machucam mais do que aliviam, ainda assim são as que temos, precisamos sobreviver.

Algumas vezes essas estratégias são como uma explosão que gera muitas crises e, ao final, eu me sinto cada vez mais vulnerável”, eu gostaria ter o apoio nesse momento, mas acontece o mesmo, meu ambiente coloca rótulos, julgamentos. Ao final continuamos com o mesmo, todos sabem como fazer as coisas exceto eu, só que eles não estão dispostos a ensinar, somente julgar. Eu entendi, eu noto:  <<algo está errado em mim>>.

Outras vezes parece que é uma implosão que os outros não veem, não julgam mas machuca também, porque eu faço a mesma coisa que eles fazem comigo, eu me invalido também, como não fazê-lo, pois foi o que eu sempre vi que eles faziam comigo, é o que parece que eu mereço, a única forma que eu posso sair daqui… outras vezes tentei aparentar que está tudo bem e não olhar para o passado, mas é difícil estar assim sempre e explodo de novo…

O mais difícil é quando sabemos que eu quero algo, mas que minha história, meu passado me diz que não vai dar certo, que você não vai conseguir”, então aceitamos coisas que acreditamos que merecemos, e nos colocamos em situações que pensamos que são mais adequadas para nós.

É como desejar com todo meu coração o vestido amarelo”.

“Eu sei, eu sinto, é o amarelo o que eu quero, não há dúvidas disso. Mas quando perguntam qual você quer, minhas palavras são “QUERO O VERDE””.

“Ficamos com vestido verde..e o vazio nunca acaba..”

 Não é o que queremos, mas é o que podemos conseguir, ou isso foi o que nos ensinaram, que você não pode confiar em seus impulsos, em seu instinto. Mas é importante lembrar que…

Se você quer o amarelo o verde não resolve.

Obrigado a esses pacientes que me ajudaram para escrever este texto, é para vocês….

Autor: José Ignacio Cruz Gaitán

E se alguém gostaria de uma alternativa para lidar com estás dificuldades são os grupos de habilidades para incrementar a regulação emocional que podem ajudar em ca- sos nos quais a intensidade das emoções e os comportamentos de risco são maio- res.

Consulte a guia de serviços que o CEFI oferece no website www.cefipoa.com.br para saber mais.

 

Compartilhe

Sobre o Autor
José Ignacio Cruz Gaitán
Psicólogo. Mestre em Psicoterapia. Membro dos Núcleos VIDA, CORA e CONTEXTUS no CEFI. Formado em Terapia dialéctica Conductual pelo Behavioral Tech e com múltiples treinamentos em Terapia de Aceitação e Compromiso, Terapia Analítico-Funcional e diversas terapias Contextuais. Coordinador do Núcleo Vida para a atenção ao risco de Suicidio e Coordinador da especialização em Terapias Comportamentai... ver mais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.