Censura

Quando fazemos uma busca rápida no Google, encontramos aproximadamente 108.000.000 resultados para censura. Ao mesmo tempo, penso que esta informação está errada por algum motivo. De acordo com o Wikipédia, “ censura é a desaprovação e consequente remoção da circulação pública de informação, visando à proteção dos interesses de um estado, organização ou indivíduo.” Censura é algo que abrange diferentes áreas, mas o que acontece quando censuramos a nós mesmos? O que deixamos de lado quando desaprovamos algo em nós e removemos dos olhos de quem nos cercam?

Se a censura é algo bom para o mundo das artes, é algo que me questiono. Pessoalmente, suponho que sim. Teria uma obra o mesmo valor se não fosse feita aos “olhos” da censura? Grandes obras foram feitas aos olhos da censura. Uma censura leve favorece o implícito, onde acontece toda a magia. Teria o autor a mesma capacidade de realizar uma obra se não fosse o foco que a censura o obriga a dar?

Evidentemente que a censura severa pode esmagar a vida de uma obra. O mesmo pode acontecer com os métodos que utilizamos para censurar a nossa dor. Talvez você não saiba, mas o sofrimento humano é universal. Pode ser que já tenha acontecido um momento de sua vida em que você estava extremamente mal e pensou “você não deve ficar assim. Não vou mostrar para ninguém que estou desta forma.  É bobagem o que estou sentindo. Vou assistir Netflix”. Você pode esquecer e até se convencer do que está passando em sua vida por um período, mas o sentimento desaparece? Você pode evitar ou censurar mais vezes, mas ele deixa de existir? Ou você sente ele em algum outro momento da vida? O que você fez então?

Pensamos que uma maneira efetiva para lidar com os nossos eventos internos (pensamentos, emoções, sensações corporais) é o de não entrar em contato com ele. Evitamos a dor presente em nossa vida. Você pode perceber que a situação na sua relação amorosa vai indo mal, mas pensa que o melhor para a outra pessoa seja não tocar no assunto. Inevitavelmente, o que você estava evitando aparece e pode ser ainda mais difícil de lidar.

Isso não acontece com cachorros, por exemplo. Diferentemente dos humanos, os cachorros evitam uma pessoa que o chutou mais de uma vez quando este está em seu campo de visão. Nós seres humanos temos a capacidade de trazer ao momento presente um evento que ocorreu no passado apenas ao pensar em uma palavra associada ao evento. Conseguimos pensar em uma pessoa que nos deu um chute e sentir medo sem ela nem mesmo estar presente.

Poder pensar em algo que não está presente é a situação que todas pessoas se encontram devido a linguagem. Pense em um momento em que você sentiu vergonha (faça este pequeno exercício neste momento). O que você sente agora? É provável que sensações tenham aparecido apenas por ter lido a pergunta. E veja, este momento nem está acontecendo agora. Tudo o que você vê são letras escritas na tela do seu aparelho. Podemos tratar como símbolo qualquer coisa. Inclusive as coisas boas. Imagine que uma pessoa querida faleceu e você acaba de ver uma das vistas mais bonitas de sua vida, no que pensaria?

Para os seres humanos, evitar as situações de dor não tem muitas probabilidades de êxito no momento de censurar os sentimentos negativos, pois um simples movimento pode ativar a mente à uma relação simbólica que evoca ao momento presente a dor. Infelizmente, alguns métodos para evitar a dor podem, tanto afetar as relações, como também resultar em patologias. Por exemplo, a dissociação ou a utilização de drogas podem reduzir temporariamente a dor, que retornará com mais força e causando mais dor.

Por fim, podemos pensar que um ser humano também busca a sua proteção quando evita sensações que geram dor. No entanto, como vimos neste texto, essa pode não ser a consequência desejada. Muitas das pessoas que buscam atendimento psicológico comentam o que deixam de viver quando se censuram. É um paradoxo. A maneira como agimos para não sentir dor parece não funcionar para a vida que desejamos.

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Sobre o Autor
Matheus Bebber
Matheus Bebber
Psicólogo graduado pela PUC-RS. Master em Investigação em Ciência do Comportamento pela Univisidade de Almería, Espanha. Formação em Psicoterapia Comportamentais Contextuais pelo CEFI-RS/CIPCO, com formação complementar em Terapia Comportamental Dialética (DBT). Experiência em atendimento de grupo de treinamento de habilidades da Terapia Comportamental Dialética. Participou de treinamento inten... ver mais

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